Moradores relatam dificuldade para chegar à cidade, transporte escolar interrompido, produção de leite retirada com auxílio de tratores e consultas médicas perdidas.
Por Matias Moura
As fortes chuvas registradas em Sant’Ana do Livramento, nos últimos dias, voltaram a expor um antigo problema enfrentado pelas comunidades rurais do município: as condições das estradas do interior. Em diferentes assentamentos, o excesso de chuva deixou trechos alagados, com barro e dificuldades de circulação, afetando diretamente a rotina das famílias.
Diante dos relatos, equipes da Defesa Civil e do Departamento de Estradas Rurais estão em deslocamento para o interior do município, com o objetivo de verificar as condições das estradas, avaliar os pontos mais críticos e acompanhar as comunidades afetadas.
O trabalho de campo ocorre em meio a relatos de dificuldades para chegar à cidade, transporte escolar interrompido, produção de leite sendo retirada com auxílio de tratores e até consultas médicas que precisaram ser canceladas devido à impossibilidade de deslocamento.
A situação é agravada pela previsão de continuidade das chuvas e pelos danos provocados pelo granizo em algumas localidades durante a madrugada. Uma das situações relatadas durante o Jornal da Manhã, da RCC FM, foi a de uma moradora que vive na região do Assentamento Ibicuí, próximo à nova ponte construída na localidade.
Ela contou que aguardava havia mais de um mês por uma consulta médica, mas não conseguiu deixar a comunidade devido às condições da estrada. “Eu levei mais de mês para conseguir essa consulta e agora, hoje, eu não posso ir”, relatou.
A moradora afirmou que entrou em contato para tentar justificar a ausência e saber se seria possível remarcar o atendimento. A preocupação é que uma nova consulta possa ser marcada somente para meses à frente. O relato evidencia um dos principais impactos da precariedade das estradas: a dificuldade de acesso aos serviços básicos de saúde.
Cerro dos Munhoz também enfrenta dificuldades
Outro ponto crítico está no Assentamento Cerro dos Munhoz, onde moradores relatam trechos alagados e dificuldades para sair da comunidade.
As informações recebidas durante o programa apontaram que a situação das estradas já estava complicada antes mesmo das novas pancadas de chuva.
O problema não se resume à formação de barro. Em alguns pontos, o volume de água acumulado compromete a passagem e deixa os moradores praticamente isolados.
Capivara: transporte escolar não consegue avançar
No Assentamento Capivara, a situação também é considerada crítica.
A moradora Sandra relatou que um motorista do transporte escolar tentou realizar o trajeto, mas não conseguiu prosseguir e precisou retornar à cidade pela região da Linha da Vitória.
Com isso, criou-se uma situação de isolamento: quem está no interior encontra dificuldades para chegar à cidade, enquanto pessoas que estão na área urbana não conseguem retornar às comunidades. “Quem veio para cá não pode voltar, e quem está lá não pode sair”, resumiu Sandra.
Segundo ela, as escolas também estão sem atividades devido às condições de acesso.
Tratores são usados para retirar a produção de leite
Um dos reflexos mais preocupantes ocorre na produção rural.
Com os caminhões enfrentando dificuldades para trafegar pelas estradas, agricultores precisam recorrer a tratores para retirar o leite produzido nas propriedades. A situação também foi registrada no Assentamento São João, onde, segundo relatos de moradores, um trator precisou auxiliar na retirada do caminhão de leite. A cena revela a dimensão do problema: uma atividade que normalmente depende de caminhões circulando diariamente pelas comunidades passa a depender de máquinas agrícolas para vencer os trechos mais críticos.
Granizo também atinge comunidades
Como se não bastasse a situação das estradas, o temporal também provocou queda de granizo em diferentes regiões do interior.
Moradores do Cerro dos Munhoz relataram pedras menores, enquanto no Assentamento São João foram registradas pedras de tamanho maior, provocando danos em telhados de residências. Em entrevista ao Jornal da Manhã, a moradora Luciana Chadozin informou que pelo menos 15 casas do São João haviam sido atingidas pelo granizo, principalmente nos telhados de fibrocimento. A Defesa Civil também foi acionada para acompanhar os prejuízos provocados pelo temporal.
Defesa Civil e Estradas Rurais fazem levantamento
Durante o Jornal da Manhã, o responsável pela Defesa Civil, Ademir, informou que estava se deslocando para o Assentamento São João, acompanhado de Vinícius, da Secretaria Municipal de Agricultura, para verificar presencialmente as condições encontradas após as chuvas e o temporal.
Além da Defesa Civil, o Departamento de Estradas Rurais também está mobilizado e se deslocando para diferentes pontos do interior do município, diante dos diversos relatos de problemas de trafegabilidade.
A intenção é identificar os trechos que necessitam de intervenção e dimensionar a situação encontrada nas comunidades.
O levantamento deverá auxiliar na definição das ações emergenciais possíveis, especialmente nos locais onde o acesso de veículos está comprometido.
“Não conseguimos chegar ao médico, tirar a produção e nem sair”
Sandra também chamou atenção para o impacto social provocado pelas condições das estradas.
Segundo ela, o problema não está apenas relacionado à comercialização da produção. A precariedade interfere na vida cotidiana das famílias, dificultando consultas médicas, acesso a medicamentos, compras e deslocamentos.
“Não conseguimos chegar na cidade. E a gente faz o quê? O aluno não consegue estudar, não consegue tirar a produção, não consegue sair se tiver que consultar, se ficar doente pior ainda”, afirmou.
A moradora também relatou dificuldades para adquirir medicamentos, citando situações em que pessoas que precisavam de remédios não conseguiram se deslocar até a cidade.
Comunidades cobram solução permanente
Os moradores reconhecem que as condições climáticas dificultam qualquer trabalho de recuperação das estradas neste momento. Porém, defendem que o problema precisa ser enfrentado de forma permanente, com planejamento e manutenção antes dos períodos de chuvas mais intensas.
“Eu sei que está chovendo, mas em algum momento vai ter que arrumar, porque a chuva vai continuar sempre assim”, afirmou Sandra.
A cobrança não é apenas por uma intervenção emergencial. Os moradores querem que os recursos destinados à recuperação das estradas sejam efetivamente aplicados em períodos adequados, evitando que as comunidades cheguem novamente a situações de isolamento.
Enquanto as equipes municipais avançam para o interior e fazem o levantamento da situação, a expectativa das comunidades é de que sejam identificados os pontos mais críticos e adotadas medidas para restabelecer a circulação.
Para as famílias que vivem nos assentamentos, a recuperação das estradas não é apenas uma questão de infraestrutura. É uma necessidade diretamente ligada ao acesso à saúde, à educação, à produção, à renda e ao direito de ir e vir.
