A voz é inconfundível, o carisma é o mesmo que há décadas conquista os palcos do Brasil e a essência permanece cravada na linha divisória que une Sant’Ana do Livramento e Rivera. Para esta edição do caderno “Santanenses pelo Mundo”, conversamos com Heber Artigas Frós Armuá, eternizado na música como Gaúcho da Fronteira, artista que fez da cultura fronteiriça a marca de uma carreira consolidada e que, até hoje, leva as origens consigo por onde passa.
O orgulho pela terra natal permanece tão vivo que, recentemente, durante as gravações do programa Encontro, da TV Globo, na Serra Gaúcha, aproveitou a oportunidade para sugerir à apresentadora Patrícia Poeta e à produção que o programa conhecesse a Fronteira da Paz. Segundo ele, Sant’Ana do Livramento e Rivera também merecem espaço em rede nacional, não apenas pela beleza dos campos, mas pela força da produção rural, da gastronomia, do turismo e da convivência única entre brasileiros e uruguaios.
Esse sentimento nasceu muito antes da fama. Filho de Dona Brígida, funcionária do Hospital de Rivera, Heber cresceu entre Sant’Ana do Livramento, Rivera e a localidade de Laureles, onde viveu uma infância em contato direto com o campo. Recorda que passava os dias correndo pelos potreiros, acompanhando o trabalho com os animais e aprendendo, desde cedo, o valor da simplicidade e da vida campeira. As manhãs de inverno, o convívio com a família e a paisagem da campanha ficaram gravados na memória e, anos mais tarde, se transformariam em inspiração para diversas composições.
Ainda estudante da Escola Número 2, em Rivera, escreveu um verso que guarda até hoje e que considera um retrato da própria infância:
“Le canto a la patria gaucha, la tierra donde nací; la gauchada de guri que los traigo en la memoria. Hacen parte de una historia que les cuento por aquí. En Laureles yo viví, a pata suelta, campo afuera, corriendo por las praderas, amar el pago aprendí.”
A lembrança permanece tão viva que o artista afirma nunca ter se desligado emocionalmente da terra onde nasceu. Para ele, a convivência entre brasileiros e uruguaios, característica da Fronteira da Paz, foi determinante para formar não apenas o homem, mas também o músico que se tornaria conhecido em todo o país.
Do Apadrinhamento na Fronteira aos Palcos Nacionais
A música entrou cedo em sua vida. Aos sete anos ganhou uma pequena acordeona e passou a participar de apresentações folclóricas. Depois vieram a Escola Industrial, os grupos tradicionalistas, o CTG Fronteira Aberta e o conjunto Os Vaqueanos. Foi nessa época que recebeu o nome artístico que o acompanharia por toda a carreira.
O responsável foi o tradicionalista Velho Milongueiro, que enxergou potencial no jovem músico e o incentivou a buscar novos horizontes. O conselho era simples: em Porto Alegre, ninguém conhecia Heber Artigas Frós Armuá, mas todos poderiam conhecer o Gaúcho da Fronteira. A sugestão mudou sua trajetória. A mudança para Porto Alegre marcou o início de uma nova etapa. Vieram os festivais nativistas, as participações na Califórnia da Canção Nativa e, pouco tempo depois, a estreia na televisão nacional, no programa do Chacrinha.
Durante a entrevista, Heber relembrou, com bom humor, que uma de suas músicas precisou mudar de nome para passar pela censura e ser apresentada na televisão, “Sonhando com Ela”, originalmente escrita com outro teor , episódio que considera um dos muitos desafios enfrentados no início da carreira nos anos 70 e 80.
O Casamento da Vaneira com o Samba
Mesmo conquistando reconhecimento nacional, nunca deixou para trás aquilo que aprendeu entre Livramento e Rivera. Pelo contrário: transformou a convivência entre as culturas brasileira e uruguaia na principal identidade de sua obra.
A ideia nasceu da convivência típica da Fronteira da Paz. Nas festas, bailes e casamentos, era comum ver a música gaúcha dividir espaço com grupos de samba que animavam brasileiros e uruguaios. Enquanto um canto da sala exibia a bombacha e a gaita de botão, no outro pulsavam o cavaquinho, a cuíca, o pandeiro e o banjo dos regionais. Heber transformou aquela realidade em Vaneirão Sambado, criando um estilo que uniu dois ritmos e se tornaria uma de suas maiores marcas.
Da parceria com Vaine Darde também nasceu “Herdeiro da Pampa Pobre”, composição que anos depois ganhou projeção nacional ao ser regravada pelos Engenheiros do Hawaii, aproximando a obra do artista de uma nova geração de brasileiros e unindo o nativismo ao rock nacional.
Ao longo da carreira, Gaúcho da Fronteira também fez questão de eternizar a terra natal em composições como “A Fronteira da Paz”, escrita em homenagem ao bicentenário de Sant’Ana do Livramento, além de “Maria Abigail”, “Tripeiro”, resgatando a memória dos operários do Frigorífico Armour e “Canto de Infância e Saudade”, canções que preservam personagens, histórias e lembranças da região.
Valores de Berço e a Tradição do Truco
Fora dos palcos, Gaúcho da Fronteira continua cultivando hábitos que o aproximam das origens. Herdou da mãe, Dona Brígida, o gosto por acolher as pessoas e faz questão de atender o público ao fim de cada apresentação, conversar, tirar fotografias e retribuir o carinho recebido.
Também preserva outra tradição que considera parte da cultura fronteiriça: as rodas de truco com os amigos, batendo o baralho às segundas-feiras no Pitoco e às quintas-feiras na Academia de Truco Amigos da Fronteira. Antes de viver exclusivamente da música, trabalhou como motorista e lembra com orgulho das amizades construídas pelas estradas do Rio Grande do Sul, oferecendo caronas e boas conversas a bordo de sua antiga caminhonete D20. Para o cantor, esses momentos reforçam o espírito acolhedor que identifica o povo da fronteira.
Ao olhar para a própria trajetória, com a tranquilidade de ver a filha de 21 anos trilhando o caminho da medicina, Heber Artigas prefere não medir o sucesso pelos discos gravados ou pelos palcos que percorreu. A maior conquista, afirma, foi permanecer fiel aos ensinamentos recebidos da família.
“Sou um homem plenamente realizado. Sempre procurei preservar a cultura, o amor e o respeito que aprendi com o meu pai e com a minha mãe”, pontua.
Mais do que um dos grandes nomes da música regional gaúcha, Gaúcho da Fronteira segue sendo um dos principais representantes de Sant’Ana do Livramento e Rivera. Dos versos escritos ainda menino na Escola Número 2 aos grandes palcos do Brasil, nunca deixou de carregar consigo a identidade da Fronteira da Paz. Uma terra que não apenas inspirou sua trajetória, mas continua sendo o lugar para onde sua música, sua memória e seu coração sempre voltam.

