Em uma região onde as fronteiras muitas vezes desaparecem na convivência diária, não é raro encontrar histórias que unem Brasil e Uruguai de maneiras inesperadas. Uma delas é a de Fabio da Silva Ferrão, morador de Rivera, que desde criança desenvolveu uma paixão especial pela Seleção Brasileira.
A relação com o futebol começou cedo. Nascido e criado na fronteira, Fábio cresceu em um ambiente onde o esporte sempre esteve presente. Ainda jovem, passou pelas categorias de base de equipes locais e, anos mais tarde, fundou o Terasaki, clube que já conquistou títulos em competições uruguaias.
Mas foi diante da televisão, acompanhando as transmissões do futebol brasileiro, que surgiu a identificação com a camisa amarela. Torcedor do Peñarol, no Uruguai, e do Grêmio, no Brasil, ele lembra que o contato constante com os campeonatos brasileiros e com a Seleção ajudou a construir essa paixão.
“Desde pequeno eu acompanhava o futebol brasileiro e gostava da Seleção. Na década de 1990, o Brasil dava muitas alegrias e eu me identificava muito com aquela equipe”, recorda.
Uma das lembranças mais marcantes aconteceu em 1995, durante a Copa América disputada no Uruguai. Ainda criança, Fábio viu a seleção uruguaia eliminar o Brasil e não conseguiu esconder a tristeza.
“Eu tinha seis ou sete anos. Todo mundo estava comemorando na rua e eu chorava com a camiseta do Brasil. Lembro disso até hoje”, conta.
Apesar de ser o único brasileiro “adotado” dentro de casa, nunca enfrentou resistência da família. Os pais e os demais parentes sempre torceram pelo Uruguai, mas respeitaram sua escolha. Entre os amigos, porém, a situação era diferente.
“Quando tinha jogo entre Brasil e Uruguai, eu me fechava no quarto para assistir sozinho. Se o Brasil perdia, os amigos iam até a minha casa para brincar comigo. Era um sofrimento grande”, relembra, entre risos.
As Copas de 1998 e 2002 ocupam um lugar especial em sua memória. A derrota para a França na final do Mundial de 1998 foi um dos momentos mais dolorosos que viveu como torcedor. Quatro anos depois, veio a recompensa com a conquista do pentacampeonato.
“Eu sofri muito em 1998. Já entendia de futebol e acreditava que o Brasil seria campeão. Em 2002 foi diferente. Comemorei muito o título. Foram duas Copas que me marcaram para sempre.”
Entre tantos craques que acompanhou ao longo dos anos, um ocupa lugar especial em sua história: Ronaldo Fenômeno. Para Fábio, o atacante foi o jogador que mais despertou sua paixão pelo futebol.
Hoje, sem deixar de apoiar seu país de origem, ele continua colocando o Brasil em primeiro lugar quando o assunto é seleção. Ainda assim, acompanha e torce pelo Uruguai em outras competições.
Para a Copa do Mundo de 2026, espera ver as duas seleções fazendo boas campanhas. E, como torcedor assumido da camisa amarela, acredita que a presença de Neymar pode ser decisiva para aumentar as chances brasileiras.
Entre a Celeste e a Amarelinha, Fábio representa uma realidade comum na fronteira: a de quem cresceu convivendo com duas culturas e encontrou no futebol uma forma única de viver essa integração.

