Não é uma referência aos que fazem cultura. Estes fazem o possível, mesmo sem recursos para continuar trabalhando. Escrevem poemas, crônicas, publicam livros, elaboram arte.
Refiro-me ao patrimônio físico. É uma tristeza de fazer chorar o estado das instalações do Museu Municipal, fechado, com infiltrações e goteiras por todo lado. Material histórico apodrecendo, com perdas irreparáveis. O que falar da Sala Cultural? Abandonada. Cadeiras e sofás em franca deterioração, paredes mofadas, madeiras decorativas em corrosão. Luminárias queimadas. Falta tudo, até papel higiênico nos banheiros.
A Biblioteca Municipal, fechada há anos, nos constrange e envergonha como cidadão. Livros se perdendo.
Há uma lei municipal que institui um espaço cultural que abrange esses prédios, a Prefeitura Municipal, a Igreja Matriz e o Colégio Rivadavia Corrêa, denominado Espaço Cultural Darcy Lindolfo Müller. Pois é, uma lei sem efeito prático: o núcleo do patrimônio cultural da cidade está abandonado.
Nem cito o Centro Cultural Casa David Canabarro, que não está no núcleo cultural da cidade, quase uma tapera rural, tal o abandono.
Ao falarmos de museu, parafraseio o historiador e acadêmico Carlos Alberto Potoko, que diz que “ a história é a identidade nacional de um povo. É a memória organizada dos feitos incomuns que dão um senso de identidade às nossas vidas e aos nossos valores, ideias e sentimentos.
Dependemos dessa memória e dessa tradição, herdada de geração em geração, para saber de onde viemos, quem somos e para saber aonde vamos”.
A memória, física ou digital, é nos museus que está preservada.
A biblioteca tem a função de oferecer material e livros, com abertura total à comunidade, para que, através deles, se adquira conhecimento.
É obrigação do poder público não apenas oferecer, mas criar diretrizes e meios para que as crianças, principalmente, tenham acesso aos livros.
Hoje há uma tendência de retorno do digital para o impresso, onde já se sabe que a compreensão e a assimilação de conteúdos é melhor no livro impresso, sem produzir os danos à visão que o digital pode proporcionar.
Atualmente, pelo mundo todo, abrem-se bibliotecas que foram fechadas e criam-se novas. Além do mais, os espaços são grandemente ampliados, com integração com o mundo digital. Deixaram de ser apenas locais onde se guardam livros para se tornarem espaços de convivência, cultura e conhecimento.
Não há justificativa para que se mantenha uma biblioteca fechada.
Somente nos períodos mais nefastos da humanidade se fecharam bibliotecas e se destruíram livros.
Livramento tem 203 anos. Onde está a memória deste tempo? Onde pesquisar a sua história? Talvez perdida em algum sótão ou em caixas umedecidas.
E de quem é a culpa do momento em que vivemos, deste tremendo abandono dos prédios e acervos históricos da cidade?
Se temos festivais grandiosos, tradicionalistas e musicais, desfiles carnavalescos e outras manifestações populares, todas apoiadas com verba pública e privada, é porque os agentes que participam se unem e trabalham para isso.
A falta de uma mobilização conjunta da sociedade civil e das autoridades nos levou à situação calamitosa atual do patrimônio cultural.
É hora de darmos a volta por cima. De nos unirmos e trabalharmos para reerguer os espaços culturais. Verbas não faltam: há em todas as esferas de governo e no setor privado. O que falta é disposição e vontade.
Vamos arregaçar as mangas e partir para a reconstrução. Ainda há tempo de salvar o que é nosso e devolver à cidade os espaços onde sua história, sua cultura e sua memória possam continuar vivas.
