A construção de uma estratégia binacional para a saúde mental está entre as prioridades das autoridades sanitárias de Rivera. A proposta, que integra a elaboração da Estratégia Nacional de Saúde Mental 2030 do Uruguai, busca considerar a realidade compartilhada entre Rivera e Sant’Ana do Livramento, com foco na criação de políticas públicas conjuntas e no aproveitamento da estrutura já existente nos dois municípios.
Segundo o diretor departamental de Saúde de Rivera, Gabriel De Nicolay, em entrevista ao programa Boa Tarde Cidade, pela RCC FM, os impactos observados após a pandemia colocaram a saúde mental entre os principais desafios enfrentados pelos sistemas de saúde da região.
De acordo com ele, questões como o aumento da solidão, dificuldades de inserção no mercado de trabalho e obstáculos para a concretização de projetos de vida têm influenciado o quadro epidemiológico observado atualmente. “Temos uma preocupação real com a saúde mental. Há dificuldades de acesso ao trabalho, aos projetos de vida, e isso afeta as pessoas”, afirmou.
Conforme De Nicolay, embora Rivera apresente historicamente indicadores de suicídio considerados estáveis em comparação com outras regiões do Uruguai, transtornos relacionados à depressão, à angústia e ao sofrimento psíquico seguem demandando atenção das autoridades sanitárias.
O diretor também destacou características socioculturais do Uruguai que, segundo ele, são objeto de estudos relacionados à saúde mental. Entre elas, citou a forte influência histórica de correntes acadêmicas europeias e o elevado índice de pessoas sem vínculo religioso formal no país. Na avaliação dele, a proximidade com o Brasil e as dinâmicas sociais da fronteira constituem elementos que diferenciam a realidade de Rivera em relação a outras localidades uruguaias.
A principal novidade do planejamento em andamento é a decisão de ampliar a escala territorial da estratégia. Em vez de elaborar um plano restrito ao departamento de Rivera, as autoridades pretendem considerar toda a região de fronteira formada por Rivera e Sant’Ana do Livramento. “A decisão de Rivera foi não fazê-lo apenas departamental, mas regional, Rivera-Livramento, para levar em conta a realidade de toda a população da região”, explicou De Nicolay.
A proposta prevê que o plano incorpore o mapeamento dos serviços de saúde mental disponíveis nos dois lados da fronteira, permitindo identificar complementaridades e evitar a sobreposição de estruturas e ações. Segundo o diretor, a região concentra aproximadamente metade da população que vive na fronteira seca entre Brasil e Uruguai, fator que reforça a necessidade de planejamento integrado para o atendimento das demandas locais.
Entre os desafios apontados está o fluxo de usuários entre os sistemas de saúde dos dois países. Enquanto Rivera conta com serviços próprios de atenção à saúde mental, Sant’Ana do Livramento dispõe, entre outros dispositivos, da rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
De Nicolay explicou que, para o acesso continuado de cidadãos uruguaios à rede pública brasileira, são exigidos documentos como CPF e Cartão Nacional de Saúde. No entanto, segundo ele, situações de urgência e atendimentos iniciais são realizados independentemente da nacionalidade do paciente, seguindo os protocolos de acolhimento adotados pelos serviços de saúde.
A expectativa das autoridades uruguaias é que a experiência de integração entre Rivera e Sant’Ana do Livramento contribua para a formulação de modelos de cooperação em saúde pública aplicáveis a outras regiões de fronteira da América do Sul.
