Durante entrevista ao programa Panorama Agropecuário, da Rádio RCC FM 95.3, o meteorologista do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS) da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, Flávio Varone, abordou os prognósticos climáticos para 2026 e a possível formação de um novo fenômeno climático.
Segundo Varone, o Estado atravessa atualmente um período de neutralidade climática, sem influência de El Niño ou La Niña. Essa condição deve permanecer ao longo dos próximos meses, com características típicas de outono e inverno, como o aumento gradual das chuvas e a entrada de massas de ar frio.
A atenção, no entanto, está voltada para o segundo semestre. De acordo com os modelos climáticos analisados pelo Simagro-RS, há indicativos da formação de um novo evento de El Niño, com possibilidade de intensidade elevada.
“Os modelos estão sinalizando a formação do fenômeno, e existe a possibilidade de um evento mais intenso. Isso pode aumentar o volume de chuvas, principalmente durante a primavera, que já é naturalmente chuvosa no Rio Grande do Sul”, explicou o meteorologista.
Apesar do cenário, Varone fez um alerta contra o excesso de informações alarmistas, especialmente nas redes sociais. “Um evento de El Niño nunca é igual ao outro. Podemos prever a formação e até estimar a intensidade, mas os efeitos regionais não são exatos. Não dá para afirmar, neste momento, que haverá grandes prejuízos”, destacou.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de repetição de eventos extremos, como as enchentes registradas no Estado em 2024, o meteorologista afirmou que não há como fazer esse tipo de previsão com antecedência. Segundo ele, episódios daquela magnitude dependem de uma combinação muito específica de fatores atmosféricos.
“Não foi apenas o El Niño que causou aquele cenário. Foi uma condição muito particular da atmosfera naquele momento”, explicou. Mesmo sem confirmação de eventos extremos, Varone reforça que o cenário exige atenção, especialmente pelo aumento das chuvas na primavera, período que historicamente já registra volumes elevados no Estado.
Para o setor agropecuário, a orientação é de cautela e planejamento. Conforme o especialista, o excesso de chuvas pode trazer impactos em diferentes fases da produção. Culturas de inverno podem enfrentar dificuldades no período de colheita, enquanto o plantio das culturas de verão pode sofrer atrasos.
“O produtor precisa trabalhar com um cenário possível de adversidade, mas sem pânico. O planejamento é fundamental, inclusive com a escolha de variedades mais adaptadas a condições de maior umidade”, afirmou.
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a evolução da estrutura meteorológica do Rio Grande do Sul após os eventos extremos recentes. De acordo com Varoni, o Simagro-RS ampliou significativamente sua rede de monitoramento desde sua criação, em 2020, passando de poucas estações para mais de 100 pontos de coleta de dados em todo o Estado.
Além disso, houve investimentos em novas estações meteorológicas, aquisição de radares e reforço nas equipes técnicas. “Hoje o Estado está muito mais preparado, tanto no monitoramento quanto na resposta. Ainda não é o ideal, mas houve um avanço importante”, avaliou.
Durante a conversa, o meteorologista também explicou as características climáticas da região da Campanha, que costuma enfrentar períodos de estiagem no verão. Segundo ele, fatores como a distância do oceano e a menor entrada de umidade contribuem para o predomínio de ar seco e quente, resultando em chuvas irregulares.
Por fim, Varone reforçou a importância de buscar informações em fontes oficiais, como os boletins do Simagro-RS, evitando conteúdos sem verificação que circulam nas redes sociais.
“A informação hoje circula muito rápido, mas nem sempre com qualidade. O produtor precisa se basear em dados confiáveis para tomar decisões”, concluiu.
