ter, 21 de maio de 2024

Variedades Digital | 18 e 19.05.24

De Lá, Pra Cá | Um mocotó, uma prisão e um legado

Alguns dos nomes dos colaboradores de O Pasquim.

Ele se reuniu com uma turma de amigos, nomes nada mais, nada menos, do que Millôr Fernandes, Jaguar e Ivan Lessa (entre outros do escalão), e encontraram uma maneira levemente diferente de se opor à Ditadura Militar: um tabloide humorístico, que, com suas charges irônicas e seus cartuns, debocharia do sistema da época. Ele seria responsável pelas ilustrações que caracterizariam o jornal, além da criação de piadas inesquecíveis.

O Pasquim foi sucesso absoluto! Não demorou muito para que as vendas ultrapassassem Veja e Manchete juntas. O humor era inteligente, rápido, sagaz. Todas as semanas, mensagens diferentes de resistência, engraçadíssimas e muito bem desenhadas – tudo criado em uma redação de 8 metros por 8 metros.
“Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo O Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo” disse ele. Mas nem tudo foi tão fácil assim.
Em uma dessas edições, a ideia foi publicar o quadro de Pedro Américo (aquele do grito da independência) mas, em vez de “Independência ou Morte”, Dom Pedro I aparecia com um balão dizendo “Eu quero mocotó!”, hit de Jorge Ben da época. Para quê? O moço e dez parceiros foram instantaneamente presos, e ele levado ao Forte de Copacabana por ser considerado um preso perigoso.
Pois bem, o preso perigoso era Ziraldo. Ziraldo, aquele mesmo criador de O Menino Maluquinho, referência na Literatura Infantil. Aquele homem de riso fácil, jeito irreverente e sincero, que usava coletes coloridos e era modesto que só,

O motivo da discórdia: o quadro de Pedro Américo com Dom Pedro I gritando “Eu quero mocotó!”

havia incomodado e chacoalhado o sistema.
O Pasquim durou mais de duas décadas, teve gigante alcance e só foi calado à bomba.
Já Ziraldo se foi há duas semanas, mas não sem antes ter vendido mais de 10 milhões de exemplares de seus livros, que foram publicados em vários idiomas e adaptados para cinema e TV, advogado pelo incentivo à leitura na educação, feito campanhas publicitárias enormes (Unicef e Mac Donald’s na lista), e ganhado mais de um milhão de reais de indenização do Governo pelos prejuízos sofridos com a perseguição política na Ditadura Militar.