qua, 22 de maio de 2024

Variedades Digital | 18 e 19.05.24

CELULAR, A PRAGA DO SÉCULO XXI!

Buenas!

Viram os fogos da virada do ano novo na avenida Champs Elysée, em Paris? Não tiveram este privilégio? Eu também não, partilhamos desta lacuna em nossas vidas, ao menos. Contudo, certo que vocês viram uma foto ou vídeo das milhares e milhares de pessoas que lá estavam assistindo, digo, gravando com seus celulares os fogos da virada.

E onde vocês estavam, teve foguetório? Estava um espetáculo, ao menos onde eu passei o reveillon. Entendo, ver vocês não viram, só gravaram para postar em suas redes sociais, igual o povo na avenida mais chique de Paris? Parabéns!

Provavelmente vocês nunca mais vão abrir este vídeo, ele ficará perdido no limbo das redes sociais, como o que fizeram ano passado, ano retrasado, o mesmo destino dos futuros foguetórios que serão filmados pelos inseparáveis telefones – que de telefone quase nada mais tem.

Mas, ao menos, vocês ganharam likes dos conhecidos e amigos, e muito dinheiro, né? Não ganharam nada, ainda não são famosos o suficiente?

Mas alimentam uma vã esperança, admitam, infundada, sem a menor chance de se concretizar, que nem ganhar na mega-sena da virada. A gente faz a aposta sabendo que não vai dar nada, mas acredita e faz planos de onde e como gastar. Quem sabe gravando o próximo réveillon na Champs Elysée?

Então, me respondam: por que tanto esforço para agradar o mundo virtual, para estar disponível e se mostrar para os outros, na maior das vezes, completo desconhecidos? Por que gastamos nosso precioso tempo com a cara grudada nesse aparelhinho criado por um ser humano inteligente, mas inspirado pelo demônio do filme “O advogado do diabo”? Lembram dele? Al Pacino está magistral no papel, assistam e entendam o lema dele: “Vaidade, meu pecado preferido!”

As respostas são tantas, que não caberiam numa crônica, mas estamos aqui para isso, não para dar respostas precisas, mas gerar o debate, propósito maior de um cronista que se preze!

Estudos realizados por pesquisadores nos EUA e depoimentos de ex-funcionários das chamadas Big Techs, dão conta que eles utilizam ferramentas propícias ao vício de seus usuários.

As drogas do estilo da cocaína, dentre outros tantos efeitos no corpo humano, estimulam a produção de dopamina, um neurotransmissor envolvido nas sensações de prazer. Não sou eu quem digo isso, é o doutor Drauzio Varella, um estudioso do assunto.

A sensação de ansiedade e expectativa geradas pela troca de telas, pelo “rolamento” de imagens de um aplicativo, estimula a produção de dopamina, mantendo o cidadão preso a ele, pelo prazer de alguma pequena conquista ou pela ansiedade de, quem sabe, aparecer uma pequena conquista, um like de alguém interessante ou interessado em nossa vida.

Há um artigo em inglês  que resume isto muito bem no próprio título: “A internet é heroína e seu smartphone é a agulha”, do professor da Universidade de Nova Iorque, Adam Alter. Ele resume o efeito que citei acima, pesquisem, leiam um pouco sobre isso e vejam o quanto estamos viciados.

Como exemplo, eu levo uns dois dias para dar conta de criar e revisar uma crônica, gastando de três a seis horas, dependendo da inspiração e motivação temática. Hoje, enquanto escrevo, parei umas cinco vezes para “conferir” o celular, dar uma reles “olhadinha” inocente.

A quem tento enganar? Eu não resisti a tentação, como um viciado em drogas faz, diz que é só desta vez, vou dar uma olhadinha de leve, rapidinho não vai me afetar e o que acontece? Ficamos horas e horas olhando para a tela, absorvendo nada e coisa nenhuma de uma grande quantidade de informações dispersas e sem rumo definido.

Lembra quando a gente sentava e lia um livro? Eu sou professor de Literatura! Passei a vida toda lendo, desde antes de aprender a ler. Fiz mestrado em Machado de Assis, o maior de todos.

Hoje em dia, após alguma reflexão sobre o vício em telas, fico envergonhado cada vez que passo pelos livros do homem me olhando, lembrando das horas e horas que passava lendo e pensando sobre um assunto. Isso que sempre fui um tanto disperso, tive filhos, sempre fui agitado e praticante de atividades esportivas.

Qual a solução para lidar com isso? Dá para viver sem ele? dependendo do seu trabalho, até pode. Porém, é factível? No meu caso não. Logo, se o inimigo é muito forte, o ideal é saber conviver com ele, para tanto, se faz necessário a tomada de algumas resoluções praticáveis.

Começar com o auto policiamento, evitando pegar o tempo inteiro, tirando os aplicativos mais viciantes, como instagram e whats da primeira tela, dificultando o acesso.

Outra coisa que ajuda, é desligar as notificações. Porém, pode gerar alguma ansiedade no início: será que não me mandaram alguma mensagem importante e eu não estou sabendo? Não mandaram! Se fosse algo importante, iriam ligar, lembra o que é isso? Logo, relaxa.

Começa por te dar prazos. Quinze minutos sem chegar perto dele, deste objeto inominável e sedutor. Depois, vencendo a primeira etapa, parta para o dobro, caso ainda esteja longe dele. Se conseguir controlar o suor e o tremor das mãos, aumente para quarenta e cinco minutos!

Mas o que fazer neste período longe dele?, pergunta um ser humano normal do século XXI, já subindo pelas paredes. Faça isso mesmo, suba pelas paredes, pegue um livro, assista uma série ou filme com ele noutro quarto, longe de ti. Também pode ir nadar, como eu, dentro d’água ele não pode ser utilizado.

Na próxima vez que mexer nele, não vai ser tanto assim o desespero, principalmente se superar o desejo vaidoso de ver e ser visto! Estou tentando, não é fácil, mas como dizem os frequentadores dos AA: um dia de cada vez!