dom, 5 de dezembro de 2021

A PLateia Digital - 04-05/12/2021

Última Edição

O PUNK E A PRINCESA

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Buenas!,

Antigas lendas contam que no final dos anos 1980 um punk da Oswaldo Aranha se apaixonou por uma princesa universitária que estudava pedras tão preciosas quanto ela. Essa história tem final feliz, apesar de ter acontecido na vida real. Prestem bastante atenção…
Ela era bela como toda princesa de desenho animado deve ser. E ia além, possuía uma beleza toda sua e acadêmica: era estudada, viajada e (por que não?) loura. Já ele era um punk bastante tradicional, usava jaqueta de couro surrada com zíper metálico, cabelo desgrenhado e magro como a fome, como era padrão nesta tribo à época. Diferente dela, abandonou a escola por não seguir regras; preferia a liberdade de beber até cair no parque da Redenção.
Muitas vezes, as princesas fogem de seus castelos estudantis em busca de aventuras junto aos plebeus secundaristas. Em uma destas madrugadas quentes, a princesa foi apresentada ao jovem por amigos em comum. Desde o primeiro milésimo de segundo que aquele olhar cruzou o caminho do punk, ele soube que sua vida nunca mais seria a mesma. Iluminado, descobriu que o seu caminho passava pela conquista daquela princesa.
Eu, vocês leitores e ele, perguntamos ao universo: como um magrelo, feio e plebeu cairia nas graças daquela nobre estudante? O punk concluiu que, no mínimo, precisava tornar-se digno de seu mundo. Outrora um sem-rumo convicto, planejou cada passo como nunca dantes.
Terminaria os estudos secundários no supletivo e faria o vestibular para a única área que poderia encantar sua atenção: estudar a história de seu rincão. Assim, teria chances de conviver com ela na universidade e teria alguma chance de aproximar-se de seu objetivo louro.
Musa dos punks da Oswaldo, alimente a imaginação deste cronista! Eis que concluiu com louvor a primeira etapa. Preparou-se como pôde para a segunda, entretanto sabia não ter as armas necessárias para derrotar o dragão do vestibular: dominava a espada das humanas, mas faltava-lhe o domínio da lança das exatas. E agora, será que o plano irá ruir como um castelo de cartas sob um vendaval?
Para quem traça com afinco um objetivo, nem tudo estava perdido. Apesar de não ter o domínio de todas as armas, possuía o controle absoluto de nervos de aço forjados nas madrugadas frias do Bonfim. Além de ter muita sorte, é claro. Aliás, ouso dizer que a sorte existe para aqueles que fazem por merecê-la!
Acreditam que o monitor da sala em que fez a prova do vestibular era seu amigo? Ele fingiu não ver os olhares furtivos para a classe ao lado, onde um japonês de óculos, com pinta de estudioso, foi previamente orientado através de uma advertência sussurrada ao pé do ouvido: “- Coloca a prova de cantinho e não esquenta”. Assustado com o olhar impositivo daquele punk e sua indumentária negra, não ousou contrariar a imposição.
Eis que, por mérito, um dedal de malandragem e um bocado de sorte, nosso jovem plebeu conquistou uma vaga acadêmica e, aos poucos, flechou o coração da princesa. E foi além…
Após o ingresso no campus, sentiu-se como se ao mundo acadêmico pertencesse sua alma, não mais àquela roupa surrada pelas madrugadas e pelo álcool. Começou por reduzir o comprimento das madeixas. Depois, coloriu algumas roupas, integrando-se cada dia mais ao verdejante campus universitário, adotando uma postura clássica de intelectual falante e fumante.
Gostou tanto da rotina acadêmica que fez dela sua profissão. Não bastasse entrar na faculdade de história, ele a concluiu. Contudo, nem sempre tudo é o suficiente. Sua amada amante já singrava os mares bravios do mestrado. Ele, mantendo-se fiel ao projeto, remou até a aprovação no mestrado, agora, sem utilizar-se de japoneses estudiosos.
Mantiveram-se tão unidos quanto uma gema brilhante incrustada em anel de formatura, apesar de estudarem assuntos tão díspares. O mestrado não foi suficiente para saciar a fome insaciável de saber da princesa, uma fome contagiosa. Ambos ingressaram no doutorado, embarcaram em naus aéreas, singraram os sete céus até a Europa, onde encontraram alfarrábios que ampliaram ainda mais seus preciosos conhecimentos.
Lembram que disse que esta longa história acadêmica termina com final feliz? Faltou contar que a felicidade existe, mas depende do ponto de vista. Após uma década de união alicerçada em seus estudos, agora maduros e vividos, descobriram novos caminhos. Cada qual encontrou um castelo universitário lotado de súditos ansiosos – também chamados de alunos -, onde eles compartilham até hoje o aprendizado que construíram juntos e, também, separados.
Depois da desunião, a princesa encontrou outros príncipes, inclusive alguns sapos, afinal, a vida nem sempre é justa, apesar dos contos de fada e dos filmes afirmarem isto. Ele ficou só, após quase perder-se na tenra juventude e encontrar-se em uma paixão que o levou a cometer a loucura de tornar-se professor universitário.
Apesar do desencontro com sua musa, há finais felizes, mesmo quando a vida não imita antigas lendas. Nosso herói reencontrou a felicidade. Conheceu uma nova princesa, e ela comunga da mesma fé histórica. Tornou-a rainha de seu castelo, construído com a adoção de duas belas princesas.
Diga-me Rei Artur, quem falou que os desenhos animados não podem se materializar num punk magrelo da Oswaldo?