dom, 5 de dezembro de 2021

A PLateia Digital - 04-05/12/2021

Última Edição

VIVEMOS UMA COMÉDIA. SERÁ ELA DIVINA?

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Beatriz e Dante, por Gustave Doré

Buenas!,

“Da nossa vida, em meio da jornada,/ Achei-me numa selva tenebrosa,/ Tendo perdido a verdadeira estrada.”

Os versos acima abrem um dos livros mais famosos da história da humanidade, “A Divina Comédia”. Não pensem que resolvi resgatá-lo por mero acaso ou falta de assunto, longe disso. Tenho uma teoria de que nada no mundo acontece por acaso, em tudo pode haver um propósito, se procurarmos bem.
Durante uma conversa despretensiosa no trabalho, citei os círculos infernais da obra. Quando em casa, resolvi rever alguns trechos e me deleitar com as magníficas ilustrações de Gustave Doré, realizadas ainda no século XIX. Ao me deparar com o verso acima, lembrei-me que, em setembro de 2021, o mundo todo comemorou os 700 anos da publicação desta obra. Em 1321, exilado e solitário, morreu o florentino Dante Alighieri, no mesmo ano em que conseguiu publicar o que viria a se tornar uma das maiores obras primas da literatura ocidental.
Vítima de um antagonismo político dicotômico – muito similar aos dias de hoje, porém com muito mais sangue – ele fora expulso de sua cidade, para onde nunca mais pôde voltar, sob ameaça de arder numa fogueira ou ser decapitado, ameaças corriqueiras, à época. Ainda bem que evoluímos e só “cancelamos” digitalmente parentes e amigos que tem visões políticas distorcidas, conforme nossa leitura, é claro…
Tenho certeza que vocês, assim como eu e o escritor, já estiveram em encruzilhadas consideradas intransponíveis ou cercado por feras terríveis. Todos já encaramos panteras políticas, dívidas leoninas ou lobos travestidos de dilemas existenciais. Como seguir em frente? Ao invés de entregar-se às lamúrias diante de um verdadeiro pé de limão, ele resolveu espremer uma das maiores e mais saborosas limonadas literárias de todos os tempos. Vou contextualizar.
Longe de sua amada Florença, escreve uma obra baseada na cultura católica, dividida em três partes, em que é o protagonista. Ingressa no “Inferno”, onde revê personalidades do passado, valorizando quem lhe é caro, e lançando para os mais torturantes círculos do inferno seus desafetos, principalmente aqueles que o proibiram de voltar do exílio, incluindo na lista um papa. Sempre guiado pelo poeta romano Virgílio, ingressa no “Purgatório”. Virgílio, morto há mais de mil anos, legou uma obra que inspirou fortemente o autor medieval.
O objetivo principal de sua aventura era encontrar sua musa, Beatrice, ou Beatriz, em português, que estava no “Paraíso” desde a sua morte, devido à sua pureza. A obra, toda escrita em dialeto toscano ao invés do latim – que ainda dominava os escritos e os negócios legais – consolidou o dialeto do centro da Itália como a língua oficial do futuro país, ambos oficializados somente no final do século XIX.
Vejam vocês, caríssimos leitores, ganhamos uma das obras literárias de maior vulto da história devido a uma crise política e a um desterro. E o que fazemos diante das adversidades da vida? Deixamos proliferar em nossos verdejantes jardins as ervas daninhas dos transtornos de ansiedade e as heras venenosas da depressão, que se avolumaram sobremaneira nestes tempos pandêmicos.
Nenhum de nós estava preparado para lidar com este vírus, tenho de concordar. Porém, adianta espernear? Podemos, como caramujos, entrar na concha e fingir que o mundo lá fora não existe, porém, eles permanecem à espreita, vigilantes, contando com nossas falhas.
Dante, no primeiro canto, esteve diante – perdoem a cacofonia, foi mais forte do que eu – de um leão, um leopardo e um lobo. O que fez? Ouviu os mais velhos, no caso, Virgílio, e encarou, literalmente, a incerta travessia pelo Inferno e Purgatório. Assim ele conquistou seu objetivo, encontrar Beatriz no Paraíso.
Muitos ficaram sem empregos, outros sofreram muito mais, perderam pessoas queridas para o inominável vírus. Não é fácil lidar com qualquer derrota, imaginem de tal vulto. Contudo, ver pessoas bem empregadas, que receberam seus salários em dia, que não tiveram perdas familiares, sofrendo como se fossem fustigados por demônios no oitavo círculo do Inferno, isto é algo que devemos repensar.
O vate florentino, por um momento, também achou que nada poderia tirar-lhe da perdição. No terceiro canto temos a frase mais famosa da obra, na entrada do inferno: “Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!” Porém, somente enfrentando seus medos e o desconhecido, ele iria encontrar Beatriz – que significa “aquela que traz a felicidade”. Não é esse, afinal, o objetivo de todos nós?
Poderia perder-me em frases de auto-ajuda como: “Se o caminhar é difícil, é porque irás longe!”, ou ainda, utilizando fórmulas que estão enriquecendo os coachs: “ser feliz é para todos!” Entretanto, cá de minha humilde cadeira de onde redijo esta espécie de missiva digital, ouso sugerir que devemos olhar para o lado.
Sei que não é fácil. Quando não estamos bem, esquecemos que o Universo é composto por trilhões de galáxias e somos pouco mais que poeira em escala cósmica. Mesmo assim, talvez possamos aprender com aqueles que penaram frente ao vírus e suas consequências, isto sem contar o injusto sistema econômico deste país.
Ou façam melhor. Um poema de 700 anos não é de fácil leitura, mas sugiro darem uma folheada no livro (de preferência com notas explicativas), ler alguns dos seus versos e inspirar-se no perrengue de Dante, para usar uma expressão contemporânea que toma conta dos diálogos atuais. Ele, ao invés de sofrer e se entregar, optou por criar.
O ser humano é o mais criativo dos animais deste planeta. Quem sabe, em meio de nossa jornada, ao invés de nos perdermos em uma floresta tenebrosa, podemos encontrar caminhos alternativos, como Dante o fez. Seu livro não o tirou do desterro, mas fez seus adversários arderem eternamente nos círculos literários do Inferno.