qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

A ESCOLHA DE PLANOS E SEQUÊNCIAS

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Algo que sempre trago em meus textos é sobre a autoria do filme. Apesar de se tratar de um trabalho em equipe e que quando os nomes nos créditos sobem é possível ver a imensa quantidade de pessoas envolvidas no projeto que é criar uma obra cinematográfica, o autor é o diretor. A figura do diretor é tão importante porque ele escolhe absolutamente tudo que acontece no filme e passa pra toda a equipe que trabalha com ele, sua visão e seus objetivos. Para isso, o diretor, em posse do roteiro, realiza sua decupagem. Decupagem é o processo em que o diretor separa o roteiro em planos, ou seja, o diretor escolhe a forma na qual irá realizar as filmagens das respectivas cenas. Assim, ele escolhe quais enquadramento deseja fazer, quais movimentos de câmera pretende realizar e, dessa forma, cria o roteiro técnico, com todas as especificações necessárias para a equipe realizar as filmagens, tudo sob sua ótica e controle. O diretor deve apenas seguir seus próprios princípios. Se mais livre, deve-se pensar em uma abordagem sensorial que leve equilíbrio ao resultado final. Se mais formalista, usar planos mais tradicionais. Quando o diretor segue uma unidade estilística específica, sua decupagem não corre o risco de soar aleatória.

O Regresso – The Revenant – 2015 – Alejandro González Iñárritu

Como o diretor não é o produtor do filme, portanto, financeiramente, não é seu “dono”, estando subordinado aos produtores e estúdios, talvez esse processo possa sair de seu controle total, mas cabe ao diretor, mesmo com as limitações impostas, conseguir implantar sua ótica. É muito importante que o diretor faça boas escolhas e crie uma unidade para conduzir a obra, pois, do contrário, poderá soar genérico, malfeito, desinteressante, sem propósito, estranho, enfim. Essas escolhas boas tem a ver com a relação que o diretor estabelece com a linguagem cinematográfica e ao mesmo tempo faz jus ao equilíbrio de seu filme. Há diretores que preferem usar mais planos e diretores que usam menos planos em suas decupagens. Diretores que usam muitos planos, cobrem muito bem suas cenas, e diretores que preferem usar poucos planos, trazem planos mais contemplativos, como os planos-sequência. A planificação no espaço é dividir o espaço da cena em planos cinematográficos. É escolher como você irá filmar aquele espaço, como os atores irão se deslocar nos planos. É “recortar” o espaço. A planificação no tempo é quando você dá um ritmo para esses planos, quando você define o tempo de cada ação e situação. Seja no momento da filmagem ou na montagem. É “recortar” o tempo.

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – 2014 – Alejandro González Iñárritu

É claro que o impacto que a obra oferece é subjetivo, então as escolhas do diretor podem ser boas ou ruins dependendo, obviamente, para o público a qual a obra foi destinada. Pode ser reconhecido uma forma de arte bem conduzida, que propõe uma lógica fílmica e ao mesmo tempo que transmite sensações interessantes ao espectador. O que estou propondo como reflexão é que deve se pensar na obra não apenas pelo ponto de vista objetivo, como a história e narrativa criadas, mas por quais razões aquelas cenas foram gravadas daquela forma específica. Quando você assiste a um filme e pensa que ele não poderia ter sido feito de outra forma, saberá que está diante de uma obra-prima. Dentre todos os planos e sequências que um diretor pode trazer, será nítido quando o diretor foi capaz de construir uma boa unidade e quando não foi.

Filhos da Esperança – Children of Men – 2006 – Alfonso Cuarón

Para isso, filmes que são tão elogiados durante os anos não envelhecem, são usados como exemplo de estudo, são possíveis de entender movimentos, ideias, épocas, retratos e quando é possível identificar a autoria do diretor, se percebe, de uma vez, a identificação com a obra daquele artista. Não só por suas escolhas, mas pela forma que conduz seus planos, suas cenas e suas sequências. E sabendo de todas essas ferramentas, é possível diferenciar quando um filme propõe uma ideia ou quando se exibe de sua técnica. Você saberá que aquela cena super difícil de se concluir em plano-sequência, por exemplo, não foi feita por mera liberalidade, mas ela faz sentido pelo contexto do filme e pelo modo que o diretor equilibrou seus elementos. Quando um plano-sequência não oferece isso, também fica nítido. É possível elogiar o trabalho de ensaio e de filmagem, mas não é possível se lembrar a razão para aquilo estar disposto daquele forma, não temos uma boa unidade. Técnica é o meio pelo qual o diretor escolhe filmar sua obra, quando a técnica é soberba e se sobressai ante a aura do filme, temos um problema.