qua, 22 de setembro de 2021

Aplateia Digital - 18-19/set/2021

Última Edição

O INSTINTO SE MANIFESTA EM RELATOS SELVAGENS

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Costumo acompanhar a temporada de premiações há alguns anos, foi assim, acompanhando os prêmios, que fui apresentado a Relatos Selvagens. A categoria de filme de língua não-inglesa, nas cerimônias americanas, é capaz de nos mostrar algumas das grandes obras de outros países. Inclusive é sempre uma expectativa, por parte do Brasil, para acompanhar o filme escolhido para competir e se, por ventura, receberá nomeações. O Brasil constantemente está presente, senão na categoria de filme de língua não-inglesa, em outras categorias, porém um grande filme cuja representação pudesse angariar vitórias, ainda nos falta. Por vezes, nesses filmes, existem as melhores obras e, ano passado, Parasita, filme Coreano, se consagrou o grande vencedor da noite, até porque, já falei sobre isso em outros textos, é impossível que o Oscar, o Globo de Ouro, o Critic’s Choice, consigam avaliar os melhores filmes. Para conseguir fazer isso precisariam assistir a todos eles, e cada país do mundo produz cinema com diversos filmes por ano, dessa forma analisam-se as premiações pelos seus próprios indicados, e não como uma garantia do que seria “o melhor”. O cinema argentino, por sua vez, apresentou recentemente filmes indicados na categoria de filme em língua não-inglesa, e Relatos Selvagens foi um deles.


O filme se apresenta de uma forma não convencional. Separado em capítulos que não possuem ligação narrativa, mas todos sempre com o mesmo tema: instinto e vingança. A direção é bastante formal e se utiliza de movimentos de câmera muito bem calculados para que fiquemos inertes ao que está sendo mostrado. Essa relação espectador-personagens é interessante, porque, acreditem, mesmo se tratando de um filme muito violento, é provável que nos identifiquemos com as situações. A realidade é retratada de forma crua e imprevisível, e os personagens avançam na história sob a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens para um lugar fora de controle. Damián Szifron, diretor do longa, havia planejado apenas curtas, mas quando os colocou juntos, em um único volume, percebeu que eles estavam ligados por um conjunto de questões que lhes deu unidade e coesão. A frase “todos nós perdemos o controle” acompanha essa sinopse da história e não poderia definir melhor.


O que separa nós, humanos, dos demais seres desse planeta? Se somos animais, como todos os outros, o que faz nós sermos diferentes deles? Somos mais evoluídos? Sabemos nos organizar em sociedade? Somos racionais? É possível que cada uma dessas perguntas, seja a própria resposta para a primeira indagação. Ocorre que, como animais, temos instintos e esses instintos são suprimidos por conta de uma convenção. Uma convenção nos impede de agir da forma como pensamos ou imaginamos para determinado momento porque, do contrário, seria errado, não só errado, mas poderia levar a consequências inimagináveis. E se pudéssemos imaginar as consequências? É o que Relatos Selvagens faz. Em cada um de seu seis contos espalhados pelo filme, demonstra uma determinada situação em que, como humanos, agiríamos com civilidade, mas como animais, agiríamos por instinto e responderíamos da forma mais brutal possível.


Gosto muito desse filme. Está entre o que há de melhor na incrível carreira de Ricardo Darín, estrela do cinema argentino, que atua em um dos contos. Esse meu relato pessoal se faz importante, justamente, porque conheci esse filme por conta dos festivais de cinema que acompanho, posteriormente fui atrás do cinema argentino e da carreira do Darín. Isso fez com que eu conhecesse outras obras incríveis e isso é muito relevante. É relevante porque demonstra que existe a possibilidade de se desfrutar das mais belas obras, daqueles filmes que te façam pensar, daqueles outros que te façam rir e demais que te façam chorar, de uma maneira bem simples: se interessando. Filmes que concorrem em festivais são importantes por conta disso, faz você buscar outros filmes e, até mesmo, faz com que você encontre filmes melhores que os próprios indicados. Relatos Selvagens é uma grande obra do cinema latino e que merece todo o prestígio.