MUITO ALÉM DA ELEIÇÃO E DA POLÍTICA DO ÓDIO

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Buenas, 

Alessandro Castro 

 

 

No início de novembro, tivemos a maior eleição americana da história em quantidade de votos computados. Nunca tantas pessoas compareceram às urnas, isso que não estou questionando em quem eles votaram. Assunto deveras relevante, porque aconteceu após uma grande campanha para que a população votasse, pois o voto lá não é obrigatório.  

Muitos de vocês já se perguntaram: por que essa informação é relevante para mim e está toda hora na mídia, já que vivo abaixo da linha do Equador? Sem considerar a importância econômica, que por si só explicaria, vou argumentar um pouco, apesar de saber que uma crônica não tem espaço suficiente para esmiuçar assunto tão espinhoso. 

O sistema eleitoral deles é exclusivo e pitoresco, em que o povo não elege diretamente o presidente. Lá eles votam em um colégio eleitoral que tem representação proporcional ao tamanho da população de cada um dos 50 estados americanos. Esses delegados escolhem o tão esperado presidente.  

Isso acontece porque eles respeitam uma tradição do final do século XVIII, com poucas mudanças. Sistema interessante, mas que, de tempos em tempos, gera polêmicas. Em 2000, por exemplo, mesmo tendo menor votação popular, Bush, o filho, ganhou a eleição de Al Gore, após contagem polêmica, pois levou maior quantidade de delegados. Mesmo assim, eles não trocam esse sistema por nada, nem por nossas tão famosas urnas eletrônicas. 

O que mais me chamou a atenção a quantidade de votos, pois os dois contendores ficaram com votações acima dos 70 milhões, números inéditos, mas que mostra a divisão do país. Com maioria popular e de delegados, o desafiante venceu.  

Agora te pergunto: qual a proposta dele? Harmonia, respeito às diferenças, combate à desigualdade de gêneros, raças e ao covid-19. Promessas contrárias às atitudes que elegeram o atual presidente há 4 anos e a campanha desse ano: Ele preferiu a arrogância, empáfia, o uso da força policial e, principalmente, o ódio. 

Como alguém que fomenta o ódio consegue tantos votos? E, quando falo de ódio, falo de maneira ampla, daquele sentimento que pode ser resumido assim: antigamente, em uma discussão, dizíamos que eu poderia não concordar consigo, mas respeito a sua opinião. O sentimento atual de uma maioria prega que, se eu não concordar com o que você disse, eu não gosto de você, passarei a falar mal e, principalmente, rejeitarei sua pessoa.  

Esse sentimento não surgiu com esse presidente americano, porém, o uso por parte dele, gerou imitadores ao redor do globo. Como ele, seus seguidores souberam aproveitar-se do fenômeno mais poderoso da atualidade: as redes sociais e o anonimato digital. 

No passado, em um debate de ideias, eu devia buscar a ponderação, se quisesse manter o nível. Com o advento das redes sociais, passei a ter o poder de dizer o que quero e do jeito que quero, podendo destilar todo o veneno que acumulo sem medos, pois o meu alvo pode estar a milhares de quilômetros de mim, podendo ser um anônimo como eu ou uma celebridade.  

Quem ataca pessoas ou instituições via redes sociais ganhou o apelido de “heaters”. Em uma tradução horrorosa, significa odiadores. Tem sentido se lembrarmos que para se eleger há 4 anos, ele utilizou-se das redes como ferramentas para fomentar ódios já latentes nos usuários. Aí você se pergunta: com isso, ele não fomentou ódio contra ele? Bingo! 

Agora, caro leitor, você matou a charada. Sim, ele precisa conquistar “heaters’ contra ele, pois assim, fortalece a defesa cega de quem o apoia. Um exemplo é a campanha que faz no momento, coloca em dúvida a lisura das eleições; sem provas, cita falhas e fraudes, pois não é o vitorioso.  

Essa tática funcionou na eleição anterior e foi copiada em diversos países, inclusive em alguns abaixo da linha do Equador. Para alimentar a incerteza, basta fazer uma acusação, provar, cabe ao acusado, não ao acusador. Segundo meus parcos conhecimentos jurídicos, deveria ser o contrário, não é? Porém, não é um tribunal de júri que esse tipo de acusação quer sensibilizar, mas sim, o tribunal das redes sociais.  

Seus seguidores, mesmo sem provas, irão concordar com ele, fomentando o ódio aos “fraudadores”. Os opositores, em contrapartida, irão negar, entrando na “briga” criada por uma falsa acusação, gerando tudo o que ele quer: “heaters”! 

Analisando essa chamada “política do ódio”, poderíamos ser obrigados a dar razão para Nelson Rodrigues, que disse: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade”. 

Porém, digo eu cá de meu canto: com o resultado da eleição nos EUA, alimento uma esperança! Ela surge como uma rosa, que “flor, ela furou o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio”, nos disse Drummond, no livro “A rosa do povo”, de 1945. Essa rosa dá voz não aos que querem o ódio, mas àqueles que buscam igualdade, àqueles que querem respeito aos direitos básicos do ser humano, dá voz até àqueles que ainda virão a nascer. 

Minha esperança é que eles poderão caminhar por jardins floridos, por roseirais vibrantes, de cores diversas, com toda a liberdade para expressar sua opinião, sem preocupar-se com ódios ou ataques virtuais, como faço nessa singela crônica, como tenho feito ultimamente…

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