A geração das redes pode aprender com o passado

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Por: Alessandro Castro, Policial Rodoviário Federal e Mestre em Literatura

A internet causou uma revolução jamais vista no mundo desde que o homem aprendeu a se comunicar fazendo sinais de fumaça. A comunicação está tão rápida quanto a luz, as informações nos atropelam em uma velocidade espantosa, tanto em imagens, vídeos ou áudios. Nunca tivemos nada parecido, diria o apressado e incauto leitor. Não é bem assim…

A era das redes trouxe consigo ferramentas de busca que nos deram acesso a quase tudo produzido pelo homem, acessível apenas com alguns cliques. Por exemplo, se alguém quiser aprender a cozinhar um escargot, tá tudo ali, apesar de eu não saber que eles eram cozidos, até consultar a internet. Dizem, não pesquisei por precaução e desinteresse, que até bombas poderiam ser feitas com as devidas orientações que há na web.

As possibilidades de aprendizagem do ser humano na atualidade são incomparáveis, historicamente falando. Porém, já houve uma revolução tecnológica tão genial quanto, guardadas as devidas proporções, é claro. E ela ocorreu há mais de 500 anos.

Na metade do século XV, após a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos, diversos intelectuais que lá viviam e faziam a guarda das obras greco-romanas e de origem árabe (por sinal, os grande matemáticos da antiguidade) fugiram para a península itálica. Trouxeram em suas bagagens todo o conhecimento do mundo que lá estava preservado.

Essa verdadeira migração de cultura aconteceu na mesma época em que surgiu uma invenção tão revolucionária quanto a internet: a prensa de Gutemberg. Com a rápida assimilação da prensa e seus linotipos pela Europa, os livros que chegavam do Oriente passaram a ser traduzidos para o Latim e para as línguas vernáculas, disseminando a cultura da antiguidade pelos países do velho continente.

Para compreender a magnitude dessa revolução cultural, basta lembrar que anteriormente eles eram copiados à mão por monges da igreja Católica. Recomendo fervorosamente a leitura do livro “O nome da rosa”, de Umberto Eco ou, pelo menos, que assistam ao filme. Estrelado pelo ator Sean Connery, se passa em um mosteiro medieval em meados de 1300, onde há uma famosa e vasta biblioteca.   O dilema que a obra apresenta, é a deliberada destruição de livros considerados “polêmicos”, segundo a ótica dominante da igreja. Tempos sombrios que nunca mais voltarão, apesar da exceção nazista que, esperamos, tenha sido a última chaga desse tipo…

A liberdade propiciada pela impressão de livros permitiu a ocorrência de revoluções culturais, como a Reforma Protestante. A Bíblia, até mesmo a de Gutenberg, era publicada em Latim, mesmo quando a maioria dos povos já escrevia e falava em seus dialetos locais, que, posteriormente, foram oficializados como a língua oficial das pátrias emergentes.

Lutero e outros contemporâneos traduziram a Bíblia para o alemão, criando assim o primeiro best seller mundial, tornando esse, o livro mais popular de todos os tempos, segundo uma moderna ferramenta de pesquisa que acabei de consultar!

Antes ainda de Lutero, homens como Leonardo da Vinci souberam aproveitar-se dessa revolução. Ele não ingressou em escolas tradicionais, mas angariou seu conhecimento através dos livros impressos que surgiam e de experiências práticas. Por não ter formação acadêmica, recebia críticas de muitos estudiosos contemporâneos por ele pouco saber do Latim, a língua dos homens cultos de então.

Para azar desses intelectuais, eles não tiveram acesso às milhares de páginas com as pesquisas engenhosas e as maravilhas artísticas que Leonardo produziu com sua escrita invertida e da direita para a esquerda. Quando morreu, em 1519, deixou como herança mais de 150 livros, uma biblioteca de respeito para a época.

Do mesmo modo que Leonardo da Vinci teve acesso a conhecimentos dos mais variados a partir da migração de intelectuais do Oriente e contou com a disseminação de um instrumento de pesquisa revolucionário, o livro, nós também estamos sendo premiados pelo surgimento de ferramentas inovadoras e avançadas para acesso ao conhecimento! Porém, não devemos esquecer que isso é realidade para uma boa parcela da população mundial, mas não para todos.

A minha grande dúvida é saber se, nós que temos acesso a tudo isso, estamos ou não fazendo um bom uso delas. Do mesmo que modo que nem todos souberam aproveitar-se da ferramenta idealizada por Gutenberg ou fizeram revoluções como Lutero, observo que a maior parte da população não está sabendo fazer bom uso dos prodígios que a atual tecnologia nos proporciona.

A liberdade de escolhas propiciada pela internet nos permite ir além do ensino padronizado das escolas; ela abriu um leque de oportunidades ímpares na história da humanidade.

Quem sabe possamos aprender a ler o mundo que nos cerca, não só através das redes, mas também através da experiência, do contato com a natureza, como fazia Leonardo da Vinci. Aproveitando-se dessas ferramentas e desses exemplos, talvez possamos ampliar o conhecimento já existente, não ficando presos ao que vem pronto, mas indo além, alimentando a nossa imaginação e fazendo “revoluções”, como fizeram gênios do nível de Gutenberg, Lutero, Leonardo e tantos outros…

 

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