A Palestina Brasileira: Arte de viver e resistir

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Um documentário filmado no Sul do Brasil e na Cisjordânia ocupada, apresenta relatos, raízes e memórias de famílias palestinas expulsas de sua terra original por Israel.

Omar L. de Barros Filho é um cineasta, jornalista e editor brasileiro. Ele dirigiu, junto com Marcos Faerman, o jornal alternativo “Versus”, e trabalhou em outras publicações em cidades como Porto Alegre, São Paulo e na América Latina. Recebeu prêmios relevantes como o Vladimir Herzog de Direitos Humanos, pela reportagem “Carta de um torturado ao Presidente Geisel” (publicada no jornal “Versus”). Na área da cinematografia dirigiu “Adiós, General” (filmado em 16 mm), premiado no Rio Cine Festival e apresentado como hors-concours no Festival de Gramado, no Brasil. Escreveu e dirigiu “Viva a Morte”, também premiado no Festival de Gramado. Ambos os filmes pertencem à corrente crítica conhecida no Brasil como “Cinema de Invenção”, que acolhe filmes que não obedecem aos cânones da cinematografia tradicional. Agora, Omar L. de Barros Filho é aclamado por seu documentário “A Palestina Brasileira”, no qual mostra famílias palestinas que emigraram para o sul do Brasil, após serem expulsas a partir da criação de Israel em 1948. O filme apresenta como se desenvolvem as atuais relações dessa comunidade com sua terra original: os parentes e amigos que ficaram para trás, suas pungentes emoções e recordações. O pano de fundo dos relatos é a opressiva realidade do povo palestino, frente às contínuas agressões por parte do sionismo ocupante de seu território legítimo.

Omar L. de Barros Filho (Foto: Divulgação)

Pergunta (P) – Quando e por que você começa a se preocupar pela causa palestina, o sofrimento do povo palestino, e depois denunciar através da arte?
Resposta (R) – A pergunta me faz recordar de minha militância socialista durante a ditadura militar no Brasil, nos anos 1970, em São Paulo, onde vivia. Durante nossas reuniões clandestinas sempre discutíamos as questões internacionais. O problema palestino era abordado com frequência. Na época, eu trabalhava como jornalista e editava o jornal “Versus”, até hoje uma referência para quem pesquisa e estuda o jornalismo no país. “Versus” era um periódico bastante original em sua proposta alternativa. Abordava, especialmente, a cultura e a política da América Latina. Quando a ditadura forçou o encerramento de suas atividades, “Versus” alcançava 30 mil exemplares de tiragem mensal. O escritor uruguaio Eduardo Galeano foi, por exemplo, nosso correspondente em seu exílio em Barcelona. O Brasil sempre foi um país fechado para a América Latina. “Versus” preconizava, a seu modo, a união latino-americana, tal como, um dia, Bolívar e Martí sonharam para o continente.

P- Bolívar e Martí, e antes Francisco de Miranda, falaram da integração latino-americana. Da necessidade da América de se unir, entre outras razões, para conseguir sua emancipação, acabar com férreas ditaduras e ser uma grande terra livre, aquela Nuestra América de Martí. Como Omar de Barros Filho vê aspectos como emancipação, liberdade e integração na época contemporânea?
R– José Martí afirmava que “não há proa que corte uma nuvem de ideia. Uma ideia firme, acesa a tempo diante do mundo detém, como a bandeira mística do juízo final, uma esquadra de encouraçados. Os povos que não se conhecem hão de se apressar em conhecer-se, como os que vão lutar lado a lado”. Emancipação, liberdade e integração são três conceitos que marcham juntos. Um não vive sem o outro, cada um é condição necessária para que o outro nasça e sobreviva.
Isso não acontecerá sem luta, nunca ocorreu fora do signo da tragédia. Martí, na frase citada antes, escrevia sobre a necessidade básica do conhecimento mútuo. Aqui entramos, então, no mundo da cultura, da comunicação, da literatura, do jornalismo e do cinema. E, em consequência, na discussão sobre o papel dos intelectuais, dos artistas e dos poetas que carregam com eles a bandeira da liberdade, a mesma do “juízo final” invocado pelo escritor e líder da independência cubana. A construção da necessária unidade entre os países latino-americanos coloca-nos, hoje, cara a cara com o enfrentamento da dominação imperialista estadunidense, que fomenta o isolacionismo, o unilateralismo e lucra com nossa divisão. O que, por outro lado, obriga-nos à inegociável tarefa internacionalista pela implantação do socialismo, visto que sem ele nada e nenhum povo sobreviverá livre.

P- Você acha que sua experiência como jornalista, como correspondente de guerra em países como El Salvador, Guatemala, é uma vantagem para enxergar melhor a situação dos palestinos na Palestina, frente à situação dos palestinos no Brasil, e, desde ali, poder mostrá-la aos públicos sob sua perspectiva artística e jornalística, com o seu documentário “A Palestina Brasileira”?
R – Claro. Para o indivíduo, assim como ocorre em sociedade, a vida é uma soma de experiências e recordações. Nossa jornada no mundo leva-nos a andar e a lembrar. Não há distâncias nem espinhos quando temos uma razão. Após o fechamento do jornal “Versus” pela ditadura, fui trabalhar fora do Brasil. Vivi em Bogotá, no México e em La Paz. Acompanhei de perto o governo sandinista, as lutas das guerrilhas em El Salvador e na Guatemala e, depois, um golpe militar na Bolívia. Trabalhei para publicações latino-americanas e em uma revista francesa. Ajudei a editar um jornal socialista na Costa Rica. Escrevi livros e dezenas de reportagens. Minha vida, então, esteve sob risco muitas vezes.
Foi em El Salvador que decidi aprender a trabalhar com o cinema. Retornei ao Brasil para enfrentar um longo período de aprendizado.

P- Como é filmar na Palestina?
R – Difícil e perigoso. Lastreado em minha experiência, orientei a produtora Cena Um e a equipe do produtor Caco Schmitt sobre os riscos que enfrentaríamos durante as duas semanas previstas para as filmagens na Palestina. Fizemos contatos prévios com as autoridades israelenses e do Brasil, e informamos com antecedência sobre nossa viagem. Portamos conosco cartas de apresentação da TV brasileira que, então, era nossa parceira no projeto. Buscávamos, assim, comprometer as autoridades públicas dos dois países com a nossa segurança, e evitar, em qualquer caso, que dissessem que éramos clandestinos e que desconheciam nossas atividades em território palestino.
Não conseguimos, infelizmente, entrar em Gaza sob cerco. Limitamos, portanto, nossas ações à Cisjordânia ocupada. Algumas poucas pessoas, por medo de represálias, recusaram-se a filmar. A maior parte colaborou e abriu seu coração. Por precaução, filmamos, primeiro, as sequências brasileiras do projeto, toda realizada no sul do Brasil, garantindo, assim, cerca de 50% do roteiro. Concluída a etapa, viajamos para enfrentar o monstro israelense, que cedo mostrou suas garras.

P- Com certeza o trabalho de movimentos pela libertação da Palestina no Brasil com um governo pró-sionista fica mais difícil. Quais você acha que deveriam ser a estratégias de informação e sensibilização social sobre, não apenas o holocausto contemporâneo palestino, mas também de outros povos como o saharaui, por exemplo, tão esquecido e invisibilizado?
R- Não me atrevo a dizer o que os palestinos devem fazer para se libertar do jugo israelense. O que, sim, posso expressar é o meu desejo de que os palestinos e seus descendentes que vivem no exterior (e são milhões) não interrompam a corrente de solidariedade que os unem aos que vivem sob a opressão israelense. Aos não palestinos, como eu, conclamo a que participem ativamente das jornadas solidárias nas ruas e nas redes sociais, denunciando, de modo permanente, os crimes de Israel, o apartheid, o projeto colonial e sua aliança espúria com o imperialismo estadunidense.

P- “A Palestina Brasileira” tem sido selecionado e apresentado em vários festivais e mostras de cinema brasileiras e internacionais. Qual acha você que seja o principal elemento ou aspecto, do documentário para ser objeto de tantas atenções? E nesse sentido, tem sido alvo de alguma rejeição ou censura em algum meio?
R – Ao realizar o filme, meu objetivo era registrar a existência quase desconhecida de famílias palestinas firmemente enraizadas no sul do Brasil, depois de expulsas por Israel de sua terra original. Os personagens do documentário personificam a Nakba, a tragédia, o desastre com suas vozes e rostos. Na Palestina, procurávamos identificar, 70 anos depois, o que restara de suas raízes, de seu passado, de suas histórias, recordações, seus amigos e parentes que ficaram para trás. Em resumo, “A Palestina Brasileira” é um filme sobre as vítimas do processo cruel que envolveu o povo palestino e sua diáspora. Não é, em definitivo, um filme sobre os carrascos.
Sendo assim, dificuldades surgiram durante todo o trajeto. Por força de contrato, a TV a cabo brasileira que co-produziu o projeto, ao analisar o primeiro corte do filme, criou inúmeros problemas por discordar de seu conteúdo. E ameaçou não colocar o filme no ar. Para tanto, contratou um especialista em política do Oriente Médio para tentar identificar alguma impropriedade na informação, o que atrasou a finalização do documentário. A direção da TV, pró-Israel, tentou censurar o filme. Ao não conseguir alcançar seu objetivo, graças ao trabalho do produtor Caco Schmitt, da Cena Um Produções, a TV pediu, então, que seu nome fosse retirado dos créditos, o que fizemos com imenso prazer. O documentário foi ao ar no Brasil, em janeiro de 2018, por força contratual.
A seguir, durante o circuito dos festivais, dois outros problemas foram identificados, um no Brasil e outro na Etiópia. Em São Paulo, fui convidado a apresentar e palestrar sobre o filme em um festival de cinema “independente”. Antes do festival iniciar, soube, por uma jornalista, que o documentário “A Palestina Brasileira” fora proibido de integrar a programação pelo patrocinador do evento, uma grande empresa pública que abriga sionistas em sua direção. Algo semelhante ocorreu em Addis Abeba. Embora selecionado meses antes pelo júri, o filme “A Palestina Brasileira” acabou afastado do festival, possivelmente por interferência da embaixada brasileira na Etiópia. O Brasil estava, então, sob o governo pró-sionista e patético de Jair Bolsonaro.
Já em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a sessão de estreia de “A Palestina Brasileira” na Cinemateca Capitólio, acolheu, entre os espectadores, um grupo de cerca de dez jovens judeus. Observei que à medida que o filme se desenrolava, pouco a pouco os jovens deixavam a sala de projeção. Apenas dois assistiram ao filme até o final. Ao deixar a cinemateca, ambos me cumprimentaram pelo trabalho e manifestaram sua simpatia pela causa palestina.

P- Qual é o impacto que tem tido “A Palestina Brasileira” tanto junto aos palestinos quanto no público geral?
R – Não é exagero de minha parte afirmar que o documentário despertou um forte sentimento positivo da comunidade palestina no Brasil, assim como entre o público brasileiro. Após a estreia do filme na TV, viajei muito para apresentar o trabalho em diferentes cidades onde vivem os palestinos-brasileiros e seus descendentes, principalmente no Estado do Rio Grande do Sul. Depois de cada uma das sessões especiais, durante as palestras que fiz, percebi uma forte identificação com o filme. Muitas pessoas choravam, outras pessoas manifestavam em voz alta sua indignação com Israel e sua política injusta de proibição de seu retorno à Palestina. O filme criou, sim, fortes laços com o público, o que superou minhas expectativas.
* Entrevista realizada por Jenny González Muñoz, professora, investigadora e editora venezuelana. Criadora e impulsionadora, juntamente com a ativista Zahra Alí, do coletivo Mujeres Artistas por la Liberación de Palestina, com sede em Caracas, Venezuela.

Por Jenny González Muñoz*, para Segundo Paso, de Caracas, Venezuela
Reeditado por Rodrigo Evaldt