Psicóloga explica como o confinamento pode interferir na nossa mente

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Manter uma rotina, conversar e se manter ocupado podem ser grandes aliados neste período

Em um grupo de amigos não é difícil encontrar aquele que seja considerado “caseiro”. Sempre recusando convites para sair, festas, reuniões, enfim. Acontece que, ultimamente, até mesmo os maiores amantes do aconchego do lar estão um pouco desconfortáveis com o longo período de confinamento imposto pela pandemia do novo Coronavírus (COVID-19).
Esse incômodo, segundo a Psicóloga Cinthya Sapundllieff, tem ligação direta com o momento que estamos vivendo hoje. Frente às orientações para que os contatos sociais sejam evitados, a mudança começa de dentro. “Na medida em que a gente começa a ficar isolado, o nosso cérebro reage de forma defensiva criando mais de alguns hormônios e tirando outros”, explica Cinthya.
Ainda de acordo com a Psicóloga, entre as alterações que o cérebro humano sofre quando exposto a longos períodos de isolamento é a carência de serotonina e dopamina, neurotransmissores fundamentais para o bom funcionamento do organismo.
Além disso a deficiência dessas substâncias pode acarretar em depressão e alterações de humor. “As pessoas ficam irritadas, incomodadas, agressivas, com reações mais tempestivas em curto tempo”, comenta.
Entretanto, atitudes simples podem contribuir para atenuar os sentimentos, principalmente de angústia, causados pelo isolamento. “Por isso a gente insiste muito dentro da clínica, quando a gente está atendendo pacientes em situação de estresse a partir do COVID-19, para que as pessoas procurem se comunicar e falar. Seja com vizinho, utilizando rede social, imagens, vídeos, é importante a gente manter isso”, diz Cinthya.

OS IMPACTOS

Ainda sob a avaliação da psicóloga, o ser humano é essencialmente social, então o fato de estar em isolamento é como se uma de suas regras mais importantes fosse quebrada. “Desde a pré-história o ser humano precisa viver em equipes, tribos. Até existe quem diga que gosta de estar sozinho, mas não por muito tempo”.
Quanto aos impactos causados pela restrição social, Cinthya fala que o primeiro sentimento que surge é o medo, principalmente de se contaminar ou até mesmo de morrer. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico também podem surgir como consequência. “A pandemia aflora o que a pessoa já tem. Se a pessoa tem uma estrutura psíquica forte, ela vai ter mais ferramentas pra enfrentar e os medos vão ser normais. Essa pessoa vai se cuidar, lavar as mãos, usar máscara, ouvir informações e entender que, se cuidando, cuida dos outros, mas vai continuar vivendo e acreditando que isso vai passar”, observa.
Já quem possui uma estrutura mais frágil, segundo Cinthya, vai precisar recorrer a algumas alternativas, como o acompanhamento profissional, onde encontrará suporte. “Vão precisar expressar seus medos, ser ouvidas, compreendidas e essas são as pessoas que precisam mais atenção para procurar dentro de si a força necessária para que consiga sair desse processo”, pontua.
Ainda dentro da mesma questão, a psicóloga avalia que o cenário atual pode propiciar o crescimento de outras condições, como ansiedade, psicose e bipolaridade. “Esses tipos de doenças mentais, que em ambientes saudáveis não acham lugar propício para se desenvolver, […] provavelmente elas venham a acontecer em alguns ambientes em que as pessoas não estejam estruturadas”.

OUTROS CAMINHOS

Embora muitas pessoas estejam apreensivas com a pandemia e com os seus possíveis desdobramentos, Cinthya oferece algumas alternativas para minimizar o stress e a angústia experimentada por quem está em confinamento.
Uma delas é criar e manter uma rotina, justamente para evitar os efeitos da temporalidade, que ocorre quando um indivíduo perde a consciência sobre o tempo e acaba apresentando sinais de desorientação. “Tem que se ter um horário para acordar, tomar café, banho e para as refeições”, afirma.
Os exercícios físicos também podem ser grandes aliados nessa luta. Mesmo que de casa, a psicóloga destaca a grande contribuição dessas atividades para o bem-estar. Nessa mesma seara, atividades como o artesanato também podem ser de grande ajuda, isso porque demandam tempo e concentração.
Quanto aos idosos e às crianças, os dois grupos considerados como mais suscetíveis aos impactos do confinamento, Cinthya diz que a palavra de ordem é atividade. “Mesmo que seja com um vizinho, tem que conversar, seja por cima do muro, por rede social, mas é importante. […] As crianças aceitam com um pouco mais de facilidade, porque acabam passando mais tempo com os pais, mas é fundamental esse contato”.

Murilo Alves
muriloalves@jornalaplateia.com