Eis a Questão! – Jurema Luz – 25/04/2020

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A palavra e o seu poder

Provavelmente, a maioria das pessoas sequer para (do verbo parar – odeio, esta Reforma) para pensar na palavra – no seu som, no seu sentido e, principalmente, no seu poder.
Mas, vamos falar primeiro no som. A mesma palavra ou frase, dependendo da entonação pode indicar várias coisas: vem cá! – gritada e de forma autoritária; ou vem cá – de forma tranquila, indicando ou solicitando apenas a presença da pessoa para qualquer coisa ou tarefa; ou veeem cááá… – melosa, macia, espichada – sequer há necessidade de complementar com “meu amor”. Apenas o tom.
Agora passemos para o sentido: tu és um bobo! Pronunciado forte, indica que quem falou acha que a pessoa é o maior otário da paróquia. Ou, tu és um bobo, de maneira mais suave, indica: cara, não olha por este lado que tu estás errado. Ou ainda: tu és um bobo!!! Gritado com muita raiva, demonstra decepção e menosprezo. Ou ser chamada de brabona, mas do lado da palavra uma figurinha carinhosa, suaviza a raiva? A frustração?
No entanto, pior é o poder da palavra que, quando não escolhida adequadamente pode causar um dano irreparável. É o que eu chamo de irresponsabilidade pessoal ou profissional.
Existem dois lados, sempre. O lado de quem fala ou escreve e pensa (ou acha) que está transmitindo uma informação ou sentimento; e o de quem recebe a informação. Aqui um hiato – Jacques Lacan – psicanalista francês, sucessor de Freud disse: “Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou”.
Quem transmite, muitas vezes sequer tem a noção do poder que possui, naquele momento da transmissão. Pode fazer um elogio sincero, mas, o outro considerar que foi um deboche; pode ofender, deliberadamente, mas, o outro não levar em consideração; pode informar de forma certa ou leviana, sem se importar se haverá consequências; pode transmitir saudade, amor, enfim, todas as emoções que conhecemos. Cada pessoa vai interpretar conforme seu conhecimento de mundo, sua bagagem cultural, sua necessidade pessoal, sua visão ou o que ela, realmente, gostaria de ouvir (ou ler). Podemos interpretar erroneamente uma informação de acordo com o que queremos ou necessitamos saber. E essa interpretação pode causar alegria ou dano.
Escuto frequentemente que não existe imparcialidade na notícia. E concordo. Por mais que não queiramos tomar partido no assunto, no momento em que escrevemos nós já escolhemos um lado. Só que é aí que entra a nossa responsabilidade com a palavra.
Não consigo imaginar um mundo sem a palavra!