Eis a questão! – Jurema Luz – 11/04/2020

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Alguém de vocês já presenciou, ou acompanhou, um asmático no último grau de infecção? A asma, embora causada por uma bactéria ou um vírus, é uma doença de fundo alérgico e, também, emocional. Bom, estou colocando desta forma porque me criei ao lado de uma mulher maravilhosa, tranquila, habilidosa, carinhosa e isso eu digo com toda propriedade, porque ela fez parte da minha vida desde que nasci. Ela se chamava Manoela. Começo a ter consciência da presença dela lá pelos meus 7 ou 8 anos. Ela foi criada por minha bisavó Maria do Carmo Simões. Quando minha bisavó morreu, ela passou a morar com minha avó, Inocência Simões Moreira, por quem – eu e meus irmãos – fomos criados.
A história da Manoela se perde no tempo. Cabelo liso (já lembro dele grisalho, fio grosso, como se descendesse de índios), muito bonita de cara, magra, elegante, sempre impecável. Nunca se casou. Tinha problema em uma perna, o que limitava seus movimentos. Habilidosíssima com as mãos, bordava como poucas. Buscava a mim e a minha irmã gêmea no colégio General Neto quando éramos bem pequenas. No caminho, nos ensinava os números utilizando como exemplo as placas nas casas. Lembro que uma vez fui ajudá-la a lavar e secar a louça do almoço, derrubei um prato no chão, que se espatifou, fiquei assustada, então ela me disse: Não fica chateada, só quebra quem faz! Nunca esqueci.
A cada inverno suas crises de asma eram tão severas que ficávamos nos olhando e pensando: deste inverno ela não passa. Os anos eram lá por 1964, por aí. Lembro de, algumas vezes, ter que sair correndo e ir na farmácia comprar o remédio para colocar na bombinha dela para que pudesse respirar. Às vezes, as crises eram tão severas que minha mãe embebedava chumaços de algodão em álcool, colocava fogo e os punha dentro de uns vidros pequenos, redondos, que chamávamos de ventosas (hoje, o paciente é levado ao hospital para ser colocado no oxigênio), colocava uns seis ou oito, em suas costas, para ajudar a, acho eu, descolar um pouco o pulmão para o ar passar. Ainda fico pensando na dor que deveria ser sentir sobre a pele aquele álcool queimando, mas que ela aguentava, estoicamente, porque iria lhe trazer alívio. Para um adulto presenciar o desespero daquele ser humano querendo, angustiadamente, respirar era terrível. Imaginem uma criança. Pois é, me criei ao lado dela presenciando esse quadro a cada inverno.
Manoela faleceu aos 72 anos de idade, ironicamente, de câncer na mama.
Por que estou contando esta história? Porque ainda não consigo entender porque algumas doenças já são consideradas como parte da nossa existência, como a asma, o câncer, a aids, a gripe, aquela que pegamos a cada mudança de temperatura – tão contagiosa e tão letal (ou não) como qualquer outra doença contagiosa e, somente agora, com o Coronavírus estão sendo tomadas precauções? Essas doenças não são importantes, não merecem os cuidados e atenção por parte de todos? Como é que, de repente, surgiu dinheiro e vontade política de parte de todos os setores para aparelhar hospitais? Os números são assustadores? E o número de mortes provocadas por outras doenças, não?
Devemos continuar a nos cuidar, como já há muito tempo viemos fazendo, por meio da informação correta, com boa alimentação, melhorando cada vez mais nossa qualidade de vida, a prova está no aumento da nossa longevidade. Muitos hábitos mudarão daqui em diante por causa da magnitude das informações, verdadeiras e/ou falsas, divulgadas. A vida não será mais a mesma sob vários aspectos.
Eu diria que 90% da população mostrou seu lado comunitário e solidário, deixando os 10% para aqueles que terão que retornar a este plano, mais e mais vezes, para resgatar atitudes que mostram o que há de mais sombrio no ser humano.