Trio de bombeiras entra para a história em Sant’Ana do Livramento

As militares integraram a primeira guarnição composta 100% por mulheres em 70 anos de história do 10° BBM

Desde vinte de junho de 1949, Sant’Ana do Livramento conta com uma unidade do Corpo de Bombeiros. Ao todo, o 10° Batalhão de Bombeiro Militar (10° BBM) conta com mais de 30 militares, divididos entre o quartel central e o grupo localizado no bairro do Armour. Integram ainda o 10° Batalhão, as frações dos municípios de Uruguaiana, Alegrete, Dom Pedrito, Rosário do Sul, Quaraí e Barra do Quaraí.
Com uma grande abrangência, além desses outros municípios, o 10° BBM recebe a missão de atender os cerca de 7 mil quilômetros quadrados que conferem a Livramento o título de segunda maior área do estado do Rio Grande do Sul.
Observando por esta óptica, conclui-se que é uma quantidade enorme de trabalho para os homens da corporação. Será? A resposta para esta pergunta é: sim e não, ou seja, é sim uma grande demanda de serviços, mas não estão limitados apenas aos homens.
A prova real aconteceu no último dia 14 de janeiro, uma data histórica para o Batalhão. Isso porque durante as 24 horas desse dia a guarnição responsável pelas ações no município foi composta 100% por mulheres. Vale lembrar que, em 70 anos de atividades da unidade, essa foi a primeira vez que isso aconteceu.
Ao longo do expediente, quem atuou como Chefe de Guarnição foi a Segundo Sargento Vanessa Vega. Já a Chefe de Linha, foi a Soldado Catia Gonçalves e como Condutora Operadora de Viatura (COV), a Soldado Kamila Oliveira.
Esta, em outubro, ainda atingiu a marca de ser a primeira mulher no pelotão a desempenhar a função de condutora. Kamila relata ainda que, movida pela paixão pelos caminhões, buscou a qualificação na categoria “D’’ para poder assumir a posição.
A Redação do jornal A Plateia conversou com o trio para saber mais sobre como foi a experiência. O resultado você confere a seguir:

POR QUE SER BOMBEIRA? E A ROTINA NO BATALHÃO

Para a Sgt. Vega, desde 2009 na corporação, a opção pela profissão foi com base no desejo de ajudar. “Amo ser bombeira, amo poder ajudar as pessoas, proteger a natureza e dar orgulho à minha família’’, comenta. A Sargento ainda falou de suas atribuições, além da conferência e organização dos materiais e viaturas, o setor logístico e algumas demandas administrativas também são suas responsabilidades. “Independentemente de ser mulher ou homem, as funções e as missões são as mesmas’’.
Já a Sd. Catia, incorporada há três anos, diz que, em um primeiro momento, a escolha pelo Corpo de Bombeiros foi com base na segurança de um concurso público. “Sempre admirei […], quando eu procurei a atividade, foi pela questão de ter a estabilidade, mas assim que eu comecei o curso eu acabei me apaixonando’’. Sobre a rotina, a Soldado falou que não há distinção, o que acontece é a divisão dentro de cada especialidade individual dos militares elencados para o serviço.
Há dois anos e sete meses atuando como bombeira, a Sd. Kamila conta que sempre admirou a carreira militar. “A parte de hierarquia e disciplina que ocorre o tempo todo na corporação é fantástica’’. A respeito da referida carreira, Kamila ainda destaca que só ter vontade não é o suficiente. “Ser militar exige esforço e dedicação independente do sexo. E não existe distinção na hora da ocorrência. Ambos são preparados da mesma forma’’.

A PRESENÇA FEMININA E A REAÇÃO DA COMUNIDADE

As três militares trabalham juntas há mais de um ano e quando questionadas sobre quais são as suas impressões acerca do trabalho das mulheres como bombeiras, as três destacam as vantagens dessa jornada.
De acordo com Vega, a relação vai além do âmbito profissional. “A vantagem é o companheirismo de estar ao lado de amigas, não apenas colegas de serviço. Além de que elas são muito organizadas’’, revela.
Para Catia, o diferencial é a sintonia das três. “A gente tem um entrosamento, uma amizade, uma união muito grande. Não que a gente não tenha com os nossos colegas homens, mas a gente sabe que nessa parte na questão da intimidade, de uma entender mais a outra’’.
No mesmo sentido, Kamila destaca a afinidade. “(As vantagens são) a compreensão, as conversas e a nossa união para crescermos dentro da corporação’’.
A respeito da reação da comunidade, as três estão de acordo, em um primeiro momento a reação é de surpresa, mas no decorrer da ação a avaliação é positiva. Ainda de acordo com as bombeiras, perceber que a população oferece o apoio e a sua admiração, é muito gratificante.

A GUARNIÇÃO 100% FEMININA

Uma honra, assim foi como a Sargento Vega definiu a oportunidade de ter feito parte da equipe responsável pelo serviço no dia 14 de janeiro. “Me senti privilegiada por fazer parte desse momento e muito feliz pela confiança recebida por nosso Comandante, o Sargento Emerson, e por estar ao lado de militares tão competentes como a Cátia e a Kamila’’. A militar ainda concluiu dizendo que esse serviço ficará gravado na memória com muito orgulho.
A Soldado Catia aproveitou para destacar a importância simbólica do acontecimento. “Sabemos da importância desse reconhecimento para nós, pois demonstra a confiança em nosso trabalho. Há um contexto histórico em que a mulher é vista como o sexo frágil, e o militarismo é predominantemente masculino”.
Além do orgulho exposto pelas companheiras, a Soldado Kamila também projeta o desejo de aumentar o número de conquistas das mulheres em sua profissão. “Foi maravilhoso, gratificante. Ficamos imensamente gratas ao nosso comandante pela confiança. Esperamos que essa conquista seja a primeira de muitas’’.

Murilo Alves | muriloalveslvto@gmail.com

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