Escolinha de Golfe “Boa Bola” celebra 20 anos de atividades

O evento alusivo à data contou com um integrante da Confederação Brasileira de Golfe

Tradição há mais de um século na região, trazida pelos norte-americanos que instalaram um antigo frigorífico na comunidade, o golfe disputa com o futebol a atenção de quem vive ao lado do clube, que não tem muros ou grades – no máximo, uma cerca com três arames para delimitar o espaço.
O campo do Clube Campestre de Livramento foi construído em 1915 como Armour Golf and Country Club, do Frigorífico Armour, construído pelo espanhol José Maria Gonzalez, pai de Mario Gonzalez e José Maria Gonzalez Filho, o Pinduca, antes de mudar para o atual nome, em 1959, é o campo de golfe mais antigo do Brasil (o São Paulo Golf Club, é o clube mais antigo, mas seu campo mudou de lugar duas vezes – da Luz para o Morro dos Ingleses, e de lá para Santo Amaro).
A cidade de Livramento sempre revelou grandes atletas para o golfe brasileiro, incluindo os campeões amadores Herik Machado e Andrey Xavier. Ambos vieram da Escola de Golfe Boa Bola, fundada em 1999 para atender menores carentes. O campestre organiza torneios profissionais desde 2008, graças ao apoio de Gilmar Mistura, Martin Aquino e Fúlvio Furtado.
Thomaz Guilherme Neves comentou sobre os vinte anos de atividades: “Além dos vinte anos de fundação da escolinha, comemoramos os 60 anos do grande amigo Birula, um caddie admirado por vários golfistas do estado. Realizamos um torneio onde todas as pessoas foram convidadas e os alunos carentes da escola também”, conta.
O caddie é responsável por carregar a sacola do jogador e ser o conselheiro e apoiador moral durante as partidas. A função exige conhecimento do campo e de estratégias de jogo, algo simples para quem cresce no Armour.
Birula, o homenageado, contou alguns momentos de sua vida no golfe: “Morei em Pelotas, Porto Alegre por mais de 10 anos e tudo isso graças ao golfe. Sempre fui bem recebido em todos os lugares, eu tenho paixão pelo golfe!”, comentou Birula.
Exceto por um convênio com a Federação Rio-grandense de Golfe, o projeto não tem apoio financeiro. A escola se mantém com as doações de equipamentos, calçados e roupas encaminhadas por jogadores de diferentes Estados, além da boa vontade de Neves e do atual professor, Pablo Chimendes, 30 anos, que começou como caddie aos 12 e, cinco anos depois, ingressou no projeto social.
Para Neves, a escola quebrou a aura aristocrática do clube de elite e criou uma convivência com o bairro que a circunda. Ele acredita que o golfe seja um instrumento pelo qual os meninos possam evoluir na vida. Exemplos não faltam.
Neves explica que, mesmo não visando à profissionalização dos jovens no esporte, o projeto lançou nomes de sucesso no golfe e abre um mercado de trabalho diferenciado para os participantes. Os que não desistem se tornam professores ou atletas, compartilhando nos clubes nos quais eles estão o mesmo esquema desenvolvido na escola de Livramento.
No Campestre, as aulas ocorrem três vezes por semana, mas os alunos podem circular todos os dias pelas dependências do clube. Nos finais de semana, quando não está em viagem, Neves é quem comanda treinos para quem quiser. A única exigência é que estejam estudando e, de preferência, com boas notas na escola. Todos recebem doações de roupas, calçados e equipamentos específicos para o esporte – uma bolsa com 14 tacos (chamada de taqueira) custa, em média, R$ 7 mil, e os sapatos impermeáveis e com travas de borracha custam a partir de R$ 400. O grupo da manhã costuma se reunir para chegar junto ao campo. Por morarem mais próximos dos buracos 1 e 2, nos fundos do Campestre, os meninos e meninas preferem pular a cerca de arame e irem direto ao ponto de encontro. Alguns chegam de carroça. Outros, montados em burros ou cavalos. Todos carregam os próprios tacos.

João Victor Montoli
Joao@jornalaplateia.com

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