Focinhos gelados, corações quentes

Como são escolhidos e como trabalham os cães policiais

O Brasil e o mundo têm acompanhado o trabalho de resgate na cidade de Brumadinho em Minas Gerais e um dos destaques dessa grande operação de resgate de vítimas e corpos de vítimas tem sido dos bombeiros e dos cães policiais e dos bombeiros. O trabalho dos “agentes de quatro patas” mostrou o valor e a importância desses animais para as forças de segurança e resgate.
Nessa reportagem, o leitor irá conhecer um pouco a história da Maia e do Lucky, dois cães farejadores, um da Brigada Militar e outro da Polícia Civil e a importância do trabalho deles para as forças policiais na cidade, além de saber como é feito o treinamento e a importância dele para a formação desses verdadeiros agentes policiais.
O Escrivão da Polícia Civil, Marcos André é o responsável pelo Lucky, um Border Collie que foi treinado para se tornar um cão farejador. Marcos que possui a formação de “condutor de cão farejador” conta que tudo começou como uma brincadeira e curiosidade. Lucky era e ainda é um cão de família, de pátio, todavia, Marcos começou a ver a potencialidade do seu cão e passou a desenvolver um treinamento com ele a partir das dicas de amigos policiais. Lucky tinha um ano e oito meses quando começou o treinamento, hoje, o cão ganhou uma profissão e destaque na Polícia Civil, participando de operações e exercendo um papel importante no combate ao tráfico de drogas.
Mas Lucky foi um cão especial que fugiu à regra. O Soldado Dutra, responsável também pelo Canil da Brigada Militar conta que os cães são escolhidos ainda pequenos, momento em que eles começam a demonstrar aptidões para o trabalho. Um dos testes iniciais é separar os filhotes da mãe quando eles ainda não abriram os olhos, colocá-los numa distância de dois a três metros e observar quem chega primeiro à mãe, isso demonstra que o cão é bom de faro já bebê, característica que poderá ser aperfeiçoada com muito treinamento.
Depois da seleção, é preciso iniciar um treinamento sério, intenso e contínuo. Dutra conta que para o cão o trabalho é como uma brincadeira e exatamente por isso que quando os animais não estão participando de operações, é preciso manter uma rotina de trabalho para que o cão não esqueça ou perca a concentração.
O cão tem que ter uma genética boa, ou mesmo ser filho de cães que já trabalham para as forças policiais, geralmente das raças Labrador, Pastor Belga Malinois e Border Collie. É observado no cão a sua atividade, foco e vivacidade.
Na Brigada Militar, o destaque, contudo, é para um cão mestiço que se apresentou como um dos melhores na função de cão de guarda e que foi doado quando tinha dois anos de idade. Dutra lembra que além de alguns cães serem especiais, a qualidade do treinamento prepara o animal para um serviço de excelência na segurança, seja com cão de guarda ou farejador no caso da cadela Maia.
O Lucky (Pol. Civil) foi uma descoberta que começou como brincadeira. Até a idade de um ano e oito meses ele era um cão de casa, de pátio, mas o escrivão Marcos André começou a ter curiosidade sobre o treinamento e preparação porque enxergou o potencial de Lucky. Foi a partir de pesquisas, vídeos e dicas de amigos da Segurança Pública que André preparou Lucky e agora ele faz parte da Polícia Civil, muito embora ele ainda continue sendo o cão da família (apenas com mais responsabilidades).

O treinamento

Os policiais contaram que o cão farejador em nenhum momento é viciado, “não há vício em nenhuma substância, o cão não tem contato com a droga ou explosivo, por exemplo, o que fazemos é contar uma mentira para o cachorro e associar o seu brinquedo preferido com o cheiro da substância que queremos que ele procure”, disse Dutra.
Tudo começa com a escolha do brinquedo, que pode ser um cano PVC, uma bolhinha, uma trança de cordas, etc., qualquer brinquedo, o que o cachorro escolher é o que será usado para o resto de vida de trabalho do cão, que na verdade será uma grande brincadeira.

Na operação, como funciona?

Quando o cão é levado para alguma Operação, ele sabe que a “brincadeira” vai começar. O Condutor mostra o brinquedo e o esconde do cachorro, é quando ele recebe o comando para iniciar a busca. O cão foi treinado para associar que o seu brinquedo sempre se esconde em lugares onde exista o odor de alguma droga, substância ou mesmo armamento, e que pode estar em qualquer lugar. O cão inicia uma busca pelos chamados “cones de odores” e investiga cada cantinho do local onde está sendo feita a operação. O Condutor o acompanha e quando o cão sinaliza que encontrou “o seu brinquedo”, ele sinaliza raspando o local ou latindo, imediatamente o condutor entrega o brinquedo para o cão, que foi iludido em considerar que havia encontrado o seu brinquedo, mas na verdade ele encontrou a fonte do cheiro da droga ou substância que ele foi treinado.

Confinamento

Dutra ainda conta que os cães da Brigada Militar vivem no canil, cada um no seu Box e que este “confinamento” faz parte do treinamento, embora eles brinquem e tenham seu momento de lazer. “O confinamento é importante para o treinamento, justamente para que o cão entenda que o quando ele está numa Operação real, ele trabalhe bem, porque aquele será o seu lazer, o momento de achar o brinquedo”, explica. Quando não estão numa Operação ou fechados nos boxes, o mais importante é que eles estejam treinando, praticando aquilo que eles fazem numa atividade real.
Para o Lucky, o treinamento funciona diferente, ela sabe que “não precisa encontrar o brinquedo”, porque ele está com o Policial André, e que o jogo é fazer uma troca. O cão fareja e encontra a fonte do odor e em recompensa ele ganha o brinquedo.

O serviço canino

Os cães trabalham em média oito anos, mas podem chegar a servir até dez anos se tiver um físico bom e manter sempre a rotina de treinamento, o que mantém o cão sempre apto para participar das Operações. O serviço na Brigada ou mesmo na Polícia Civil está totalmente ligado ao treinamento e rotina do cão, ele é fundamental para manter o cão sempre 100% para o trabalho.

Operações marcantes

Para o Soldado Dutra uma Operação marcante da cadela Maia foi justamente a sua primeira ação onde ela também teve êxito. A equipe estava numa busca e apreensão e não encontrava os entorpecentes, foi quando a Maia foi chamada para a sua primeira ação e ela teve êxito. Para Dutra que está há 10 anos trabalhando com o Canil esta foi a certeza que o trabalho e o treinamento estavam sendo bem feitos.
Para Marcos Andre a ação mais marcante do Lucky foi quando chamados para uma Operação o cão ficava dando voltas e voltas na casa. André teve certeza que a droga estaria escondida nas frestas da casa, mas nada era encontrado. André conta que já estava perdendo a paciência quando o Lucky fugiu e correu em direção a proprietária da casa que estava sentada há uma certa distância com um bebê nos braços. Lucky ficou estático olhando para a criança. André conta que pediu desculpas para a senhora e alertou que o cão estava apenas curioso com o bebê, já que nunca tinha visto um. Foi quando a equipe percebeu que era a segunda vez que Lucky corria na direção da senhora e resolveram fazer uma busca pessoal na senhora. A droga estava escondida no peito da mulher que usava o bebê para proteger o volume.
As duas ações contadas pelos agentes de segurança mostram o apoio e importância dos cães para o serviço da segurança pública, assim como em Brumadinho para o resgate de vítimas e recuperação de corpos em meio à lama.
“Precisamos confiar no cão, ele estará sempre certo” – Marcos André.
A equipe do Canil da Brigada Militar é composta também pelos soldados Elder e Marcelo que trabalham junto com o soldado Dutra.

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