Sempre de olho no futuro, pesquiso com alternativas para, em breve, não ser um fardo para meus filhos. Morador de um apartamento alugado, confiro folhetos distribuídos em sinaleiras e coloca-dos na caixa postal.
As “ofertas” não me seduzem. Quando o valor do imóvel cabe no orçamento, a metragem não condiz com o que almejo em termos de espaço. Uma conta que não fecha. Quando a opção é nova, sem mobília e decoração, o custo torna-se ainda mais proibitivo.
Entre as opções oferecidas pelo mercado, uma das novidades são os imóveis chamados “sênior” (ou “senior living”). Combinação de moradia independente com serviços voltados à saúde, acessibilidade e convivência para o público 60+.
Em Porto Alegre, existem residenciais sênior de alto padrão, com “lofts” e apartamentos de 22 a 60 metros quadrados (“estilo garden)” ou com um dormitório. São imóveis “totalmente adaptados com acessibilidade PCD, paisagismo multissensorial e infraestrutura completa”. Alguns são equipados, inclusive, com churrasqueiras e área de estacionamento para visitantes.
Numa conversa com a minha filha, cheguei a mostrar um “flyer” (folheto/panfleto) e comentei as “atrações” que o empreendimento disponibiliza para clientes com mais de 60 anos.
– Mas o que é isso, pai?!? Tu achas que vou te deixar sozinho, sem cuidados e abandonado? Bem capaz! – disparou a guria com um ar de indignação.
Com calma, expliquei à ela que, solteira, sem filhos e ainda morando com a mãe, a tarefa de “cuidar do velho” se torna bem mais fácil. Além disso, todos os meus exames, realizados no check-up anual – com maior variedade e detalhadas avaliações – indicam que a saúde está boa. E que tão cedo ela não terá este dispêndio de tempo e paciência.
Acrescentei que trabalho desde os 14 anos e que, ao longo do tempo, me preocupei em ter uma velhice sustentável. Além disso, usei uma frase que a deixou ainda mais enfurecida.
– Minha filha… a vida me ensinou que a lógica era eu trocar as tuas fraldas. E não o contrário! – argumentei.
A longevidade, decantada aos quatro cantos por autoridades e políticos no poder, está longe de ser sinônimo de qualidade de vida, paz e velhice digna. E com os golpes no INSS, certamente muitos ficarão pelo caminho.
