Em setembro, há lugares em Sant’Ana do Livramento onde o Mês Farroupilha não é apenas comemorado: é vivido todos os dias. No Piquete de Tradições Gaúchas Maragatos e Chimangos, a programação de 2026 reúne semanas de fandangos, grandes nomes da música regional, gastronomia campeira e uma rotina que mantém viva, inclusive dentro da cidade, a relação do gaúcho com o cavalo e com a lida.
A história começou de maneira muito mais simples. Fundado em 10 de abril de 2010, o Maragatos e Chimangos nasceu de uma mobilização liderada pelo patrão Pedro Nunes e sua família, inicialmente com a ideia de criar um refúgio campeiro e um espaço reservado para os encontros dos finais de semana. A sede foi inaugurada em 30 de julho daquele mesmo ano, justamente no aniversário de emancipação de Sant’Ana do Livramento.
O pequeno galpão, porém, cresceu. A procura de tradicionalistas e famílias levou a sucessivas ampliações e transformou aquele espaço familiar em um ponto de encontro que hoje recebe público de diferentes lugares da Fronteira e do Rio Grande do Sul. Em 2018, um levantamento realizado em conjunto com o repórter Giovani Grizotti, da RBS TV, identificou o Maragatos e Chimangos como sede da maior Semana Farroupilha fandangueira do Estado realizada sob o teto de uma única entidade social.
É durante o Mês Farroupilha que essa estrutura ganha ainda mais movimento. Em 2026, o calendário começou em 1º de setembro, com o baile de abertura “Saudade de Setembro”, comandado por Wagner “Tchê Véio”. Nos dias 5 e 6, a programação segue com Machado & Marcelo do Tchê, Tchê Barbaridade e Tchê Véio.
A partir do dia 12, começa uma sequência ainda mais intensa. Grupo Sorriso Lindo, Fabrício Rios & Banda, Os 4 Gaudérios, Portal Gaúcho, Sandro Coelho, Estação Fandangueira, Mário Júnior, Grupo Bailaço, Grupo Matizes, Banda Primeira Dama, Tchê Chaleira e Grupo JJVS, estão entre as atrações que passam pelo piquete durante o mês. O Grupo Só Gaitaço e o Tchê Véio também aparecem em diferentes noites da programação.
O calendário reserva momentos especiais. No dia 13, ocorre a abertura oficial, com a busca da Chama Crioula pela manhã. Já em 20 de setembro, Dia do Gaúcho, Tchê Chaleira e Tchê Véio comandam o grande fandango comemorativo. A programação encerra no dia 26, com JJVS e Tchê Véio.
A dimensão da festa também pode ser percebida na procura antecipada: para o baile do dia 12, por exemplo, os ingressos do primeiro lote já estavam esgotados conforme o levantamento preparado pela entidade.
Para receber essa movimentação, o Maragatos e Chimangos funciona com duas alas distintas. O salão de fandango concentra os grandes bailes, com pista ampla, palco para grupos e bandas e estrutura voltada à recepção do público e das excursões.
Já o Maragatinho é dedicado à gastronomia e ao convívio. É ali que acontecem os jantares campeiros, acompanhados por apresentações instrumentais ao vivo. O buffet é livre, com sobremesa incluída, e começa a ser servido antes mesmo do horário formal do jantar, uma estratégia adotada para que cada pessoa possa se servir no seu tempo e evitar grandes filas.
E o cardápio de setembro é daqueles que combinam com a proposta. Tem mexido de ovelha, carne de panela, arroz de carreteiro, carne ao molho maragato, vaca atolada, além de feijão campeiro, massa com charque, mandioca frita, batata-doce, abóbora caramelizada e diferentes acompanhamentos. Os jantares acontecem mediante reserva antecipada, R$ 50 por pessoa, com buffet livre, sobremesas e música regional ao vivo.
No dia 20 de setembro, a programação gastronômica também ganha um capítulo especial: no almoço, será servido o Churrasco Farroupilha, acompanhado de arroz, feijão, massa e buffet completo de saladas.
Tradição que não existe apenas durante setembro
Se os fandangos atraem os olhos do público, há uma parte importante do Maragatos e Chimangos que acontece longe do palco. Para Pedro Nunes e os integrantes da Invernada Campeira, o cavalo não aparece apenas para o desfile de 20 de Setembro: faz parte da vida do piquete.
A rotina começa cedo, com alimentação e limpeza das baias, segue com alfafa, pastejo, banho, escovação, renovação da água e todos os cuidados necessários até o trato noturno. Manter esses animais dentro do perímetro urbano exige trabalho e dedicação diária.
É justamente essa rotina que transforma a estrebaria em uma espécie de “museu vivo” da cultura campeira, onde quem vive na cidade ou visita a Fronteira consegue acompanhar de perto práticas que normalmente estariam associadas ao interior e às propriedades rurais.

