Quando o livro vira um YouTube de papel

Crédito: Divulgação/Redes sociais
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Hoje fui a uma livraria com minha filha. Tenho tentado incentivar nela, cada vez mais, o hábito da leitura e, principalmente, criar alternativas ao excesso de telas, redes sociais e vídeos curtos que fazem parte da vida das crianças de hoje.

Mas saí da livraria com uma reflexão — e uma preocupação.

Olhei para aquelas mesas cheias de livros infantis coloridos, com capas chamativas e títulos pensados para prender imediatamente a atenção. É claro que existem bons livros ali. Mas, infelizmente, eles parecem ser uma minoria.

E o problema não é apenas a qualidade de algumas histórias. É o tipo de estímulo que estamos oferecendo.

Muitos daqueles livros parecem ter sido feitos para competir diretamente com o celular. São rápidos, visuais, cheios de estímulos, personagens e situações que precisam capturar a criança imediatamente.

É quase um YouTube no papel.

E aí está a contradição que me preocupa: estamos tentando tirar nossas crianças das telas e colocá-las diante de livros que, muitas vezes, não estimulam a leitura — estimulam a criança a voltar para a tela.

Quando eu era criança, muitos dos livros que chegavam às nossas mãos tinham outra proposta.

Meu Pé de Laranja Lima.
O Pequeno Príncipe.
A Casa das Quatro Luas.
Os clássicos brasileiros.
Monteiro Lobato.
José de Alencar.
Histórias que exigiam atenção, despertavam imaginação, ampliavam o vocabulário e deixavam alguma coisa dentro de nós depois que a última página era lida.

Não quero transformar isso numa crítica generalizada aos livros atuais. Há excelentes autores, editoras e obras infantis sendo produzidas hoje.

Mas precisamos fazer uma pergunta incômoda:

Estamos realmente formando leitores ou apenas tentando reproduzir no livro a lógica das telas?

Porque ler não deveria ser apenas uma forma diferente de consumir estímulos.

Ler deveria ensinar a criança a permanecer. A imaginar. A esperar. A interpretar. A construir mentalmente uma história que não está pronta diante dos seus olhos.

O livro deveria ser justamente o contrário do algoritmo.

Enquanto a tela diz: “olhe para cá, agora para cá, não perca o próximo estímulo”, o livro deveria dizer: “pare, entre nesta história e descubra o que existe dentro dela”.

Se queremos combater o excesso de telas, não basta dizer às crianças para ler.

Precisamos oferecer bons livros.

Precisamos apresentar os clássicos. Precisamos incentivar histórias que tenham conteúdo, linguagem, personagens e valores. Precisamos ler com nossos filhos, conversar sobre o que eles estão lendo e ajudá-los a descobrir que literatura não é apenas entretenimento.

Porque existe uma diferença enorme entre uma criança que lê para consumir mais um estímulo e uma criança que lê para descobrir um mundo.

Hoje, naquela livraria, diante de tantas mesas repletas de livros, foi exatamente isso que fiquei pensando.

Se queremos que nossos filhos deixem um pouco as telas, precisamos ter coragem de oferecer a eles livros que sejam capazes de competir não com o celular, mas com aquilo que o celular não consegue oferecer: profundidade, imaginação e conhecimento.

Jeronimo Goergen
Advogado

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