Apresentador do Jornal Hoje, Roberto Kovalick transformou o sonho de contar histórias em uma carreira de reconhecimento nacional, sem deixar para trás suas raízes santanenses.

Raízes na Fronteira, coberturas pelo mundo

O texto abaixo está em

De um lado, as ruas tranquilas de Sant’Ana do Livramento, as férias em família, os banhos de sanga e a tradição campeira. Do outro, alguns dos acontecimentos mais marcantes do mundo nas últimas décadas, acompanhados de perto e narrados para milhões de brasileiros. Entre esses dois cenários está a trajetória de Roberto Kovalick, jornalista que levou o nome da Fronteira para além das fronteiras geográficas e se tornou um dos principais profissionais da comunicação do país.

Neste mês em que Sant’Ana do Livramento celebra mais um aniversário, a história de Kovalick ajuda a contar também a história de uma cidade que, há gerações, forma pessoas dispostas a sonhar grande. Uma terra de raízes profundas, mas que ensina seus filhos a alçarem voos cada vez mais altos, sem jamais esquecer de onde vieram.

Apresentador do Jornal Hoje, da TV Globo, e ex-correspondente internacional em cidades como Nova York, Tóquio e Londres, Roberto construiu uma carreira marcada pela credibilidade, dedicação ao jornalismo e pela capacidade de transformar acontecimentos complexos em histórias compreensíveis para o público. Ao longo de mais de três décadas de profissão, acompanhou de perto momentos históricos, viveu em diferentes países e se tornou um dos rostos mais conhecidos do jornalismo brasileiro.

Mas, antes de tudo isso, existia o menino que esperava ansiosamente pelo fim das aulas para viajar até Livramento e passar as férias ao lado dos avós, tios e primos. O menino que ajudava na tosquia das ovelhas na pequena propriedade da família, que soltava pandorgas, passava os dias brincando no campo e encontrando felicidade nas coisas mais simples.

Embora tenha deixado a cidade ainda na infância, quando a família se mudou para Porto Alegre, Livramento nunca saiu de dentro dele. As lembranças permanecem vivas e detalhadas. Até hoje, Roberto diz carregar um verdadeiro mapa afetivo da cidade na memória. Lembra-se das ruas, dos caminhos até o Centro, das idas à fronteira, dos passeios por Rivera e dos tradicionais panchos que faziam parte daqueles dias.

As recordações também passam pelo jornalismo. Ainda criança, na casa dos avós, ele folheava as páginas do Jornal A Plateia, sem imaginar que, anos mais tarde, construiria uma das trajetórias mais importantes da imprensa brasileira. Curiosamente, foi já na vida profissional, em Brasília, que ele percebeu a forte vocação jornalística.

Em uma redação com cerca de 90 profissionais, três eram santanenses. Para ele, uma coincidência improvável, mas que revela algo maior: a tradição de uma cidade que sempre teve no jornalismo uma de suas marcas e que, ao longo dos anos, formou profissionais reconhecidos em diferentes partes do país.

A decisão de seguir a profissão veio na adolescência, depois de assistir ao filme Todos os Homens do Presidente, clássico que retrata a investigação jornalística que culminou na renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon. Naquele momento, entendeu o que queria fazer da vida: contar histórias, buscar a verdade e levar informação às pessoas.

Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), iniciou a carreira no Grupo RBS e, posteriormente, ingressou na TV Globo. O caminho que parecia distante para o jovem que admirava os grandes repórteres da televisão foi sendo construído passo a passo, com trabalho, persistência e dedicação.

A carreira internacional levou o jornalista a viver experiências em diferentes partes do mundo. Como correspondente, morou nos Estados Unidos, no Japão e na Inglaterra, acompanhando acontecimentos que entraram para a história contemporânea. Entre todos eles, a cobertura do terremoto, do tsunami e do acidente nuclear de Fukushima, em 2011, é lembrada por Kovalick como o maior desafio de sua trajetória profissional.

Foram dias de intensa tensão, marcados pela destruição, pela incerteza e pela preocupação com a segurança de sua própria família, em meio ao risco de contaminação por radiação e à escassez de alimentos. O trabalho realizado naquele período teve grande repercussão e permanece na memória de muitos brasileiros, especialmente da comunidade japonesa. Ao retornar ao Brasil, em São Paulo, o jornalista José Roberto Burnier costumava chamá-lo, de forma bem-humorada, de “Tsunami Boy”, uma referência à cobertura que marcou definitivamente sua carreira.

Foram dias de incertezas, preocupação e trabalho intenso, em meio a um cenário de destruição e insegurança. A cobertura acabou marcando não apenas sua carreira, mas também a memória de milhares de brasileiros, especialmente da comunidade japonesa no país.

Apesar da distância e dos muitos anos longe da Fronteira, o vínculo com Sant’Ana do Livramento permanece vivo. Roberto Kovalick ainda mantém contato com alguns familiares que seguem na cidade e faz questão de destacar o tamanho de suas raízes familiares. O avô Kovalick teve 11 filhos, enquanto o avô Amado constituiu uma família de cinco filhos, formando uma extensa rede de tios, primos e histórias compartilhadas na Fronteira. Embora o tempo e a vida tenham naturalmente afastado alguns laços, o carinho, as lembranças e o sentimento de pertencimento continuam presentes. 

Ao olhar para a própria trajetória, Roberto Kovalick encontra em uma metáfora a melhor definição para o que significa ser gaúcho e, especialmente, santanense. Ele recorda a frase de um poeta que descreveu o gaúcho como uma “árvore com asas”.

A imagem parece feita sob medida para sua história. As raízes permanecem profundamente fincadas na cultura, na família e nas lembranças da infância em Sant’Ana do Livramento. As asas, por sua vez, permitiram que ele voasse pelo mundo, conhecesse diferentes realidades e se tornasse um dos mais importantes jornalistas do Brasil.

E, mesmo depois de tantos voos, de tantas notícias e de tantos quilômetros percorridos, há uma certeza que permanece inalterada para Roberto Kovalick: é em Sant’Ana do Livramento que estão as suas raízes.

NO AR
Rádio RCC