A história de Vinícius Bidarte é um ciclo que se fecha, ou melhor, que se expande no coração de Sant’Ana do Livramento. Filho de um motorista aposentado e de uma empregada doméstica, Vinícius partiu em 2018 com o peso da responsabilidade na bagagem e retornou em 2026 como professor efetivo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Sua trajetória é um manifesto sobre o poder transformador da educação pública e a dignidade do trabalho.
A caneta e a pá
A relação de Vinicius com o trabalho foi moldada no seio de uma família humilde. Entre o exemplo de esforço do pai, Ademir, e a dedicação da mãe, Eliete, ele cresceu ouvindo uma frase que se tornaria seu norte: “O peso da caneta é mais leve que o peso da pá”.
“Isso me fez compreender, desde cedo, o trabalho não apenas como realização pessoal, mas como algo atravessado por desigualdades que eu queria mudar para mim e para minha família”, recorda. O desejo de ser professor nasceu cedo, em um mini-quadro de giz no quarto onde ensinava o irmão, Leonardo. O que era brincadeira de criança revelou-se uma vocação sólida que o levou a percorrer os corredores das mais prestigiadas universidades do estado.
A jornada da qualificação
Sair de Livramento em 2018 para enfrentar mestrado e doutorado não foi uma tarefa simples. Longe do conforto da família e enfrentando os custos de vida e os desgastes físicos e mentais da pós-graduação, Vinícius passou por Santa Vitória do Palmar e Porto Alegre. Entre a FURG, a UFRGS e o IFRS, ele equilibrou a formação acadêmica com o trabalho remunerado, aprendendo a reconhecer os próprios limites para não adoecer diante das exigências da carreira acadêmica.
“Sair do interior exigiu adaptação e muitos aprendizados. Foi um processo de busca por um sonho, e cada desafio valeu a pena para chegar onde estou hoje”, afirma o docente.
O reencontro com a Fronteira
Oito anos depois, o regresso em 2026 tem um sabor especial. Vinicius não volta apenas para o lugar de onde saiu; ele chega com a bagagem repleta de vivências, pronto para contribuir com a instituição que também fez parte da sua formação. Ser nomeado professor efetivo na Unipampa é, para ele, um compromisso com o território e com a sociedade fronteiriça.
“Minha trajetória foi construída em instituições públicas, desde a Escola General Neto e o Liberato até a UFRGS. Retornar à Unipampa como docente é um desdobramento natural desse percurso, reafirmando meu compromisso com o município”, pontua.
Além da academia
Apesar da brilhante carreira acadêmica, Vinicius mantém os pés firmes no que realmente importa. Para ele, o trabalho é um espaço de intervenção na realidade, mas a vida não se reduz ao currículo Lattes. “Sou alguém que ama a família, os amigos e os animais. Alguém que ama esta terra fronteiriça e deseja contribuir para o seu desenvolvimento”.
Neste Dia do Trabalhador, a história de Vinicius Bidarte serve como inspiração para tantos jovens santanenses que, hoje, sentam nos mesmos bancos escolares que ele ocupou. Ele é a prova de que a educação pública abre caminhos que, de outra forma, seriam intransponíveis.

