Na mesa de um bar em Porto Alegre, um grupo de jovens cantava: “Há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão, nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição, de morrer pela pátria e viver sem razão! Vem vamos embora que esperar não é saber!”
Em outra mesa sentados dois uruguaios, Augusto e Andrés.
Andrés comentou: “Não sabem o que cantam, mas cantam bem e de vontade de se unir a eles”.
̶ “Por que não vai?
̶ Já sou um velho. Imagina eu misturado com eles. Não cola.
Andrés acabou se convencendo de que não era tão velho, juntou-se ao grupo, bebeu e pagou cervejas para todos. Quando lembrou que o amigo ficara sozinho o chamou. Augusto, porém, disse que só ia terminar a cerveja e iria embora. Andrés contestou que parecia um velho amargurado.
̶ Não esquenta comigo. Estou cansado e vou dormir.
̶ Tu que sabes, velho triste. Eu vou me divertir um pouco. A vida é muito curta.
Quando sentiu o ar fresco da rua, Augusto ouviu que começavam outra canção. Sabia como ia terminar aquela noite. O ponto máximo seria com Andrés deitando com a garota mais linda do grupo, no momento em que a madrugada começasse a chegar.
Na rua as paredes gritavam coisas. Eram frases que, muitas vezes, não conseguia compreender bem, apesar do bom conhecimento do português. “A palavra cão não morde”, “Elis vive”, “A mentira é uma verdade que ainda não aconteceu”, “Deu pra ti anos setenta”, “Bailei na curva”. As paredes transmitindo ideias, imagens, poesias, perguntas.
Na entrada de um prédio perto da pensão de Augusto, dois velhos e uma criança ajeitavam sua cama, no miserável acampamento. Um cachorro latia sem parar e sem motivo. Um garoto atravessou a rua em desabalada carreira, com as passadas ecoando nas paredes. Uma viatura da polícia surgiu na esquina com sirene e luzes a todo vapor. O garoto sumiu num corredor estreito e a viatura passou ao largo. Um dos velhos se queixou, o cão voltou a latir, talvez vendo um fantasma, que ninguém via.
Augusto chegou à pensão, colocou a chave na fechadura e, como não estava com sono, para não ficar horas olhando o teto sujo, retirou a chave e foi caminhar sem rumo.
Dois rapazes colavam cartazes num muro com aviso de proibição. Ele dobrou na primeira esquina e uma rua mais escura o recebeu. Um bando de homens e mulheres descolavam cartazes e colavam outros. Parecia uma guerra de desinformação, a guerra dos cartazes.
Augusto sorriu e lembrou-se de um Carnaval quando um policial militar deteve um jovem. Discutiram. Curiosos formaram uma roda. O policial arrancou a carteira de identidade da mão do rapaz. Ele não aceitou e pegou de volta o documento. O PM irritado o encostou na parede. O moço desafiou a autoridade, empurrou e anunciou que ia embora e não ia mostrar merda nenhuma para nenhum policial e foi saindo da roda. O guarda, talvez novato, não soube o que fazer. O pessoal que tinha parado para assistir sorria divertido. O insubordinado ia xingando a cada passo que dava, insultando a família do policial.
Uma caminhonete da PM, com vários agentes, apareceu na rua. Quando viu, o rebelde arregalou os olhos. Sentindo medo, ele saiu em louca carreira e desapareceu em meio aos foliões que estavam ali para festejar o Carnaval.
(continua)
