Jornal A Plateia – Rádio RCC – Santana do Livramento

dom, 19 de abril de 2026

A Escrita Fronteiriça de Tanise Carrali

Entre a Linha e o Campo

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A literatura é, por definição, um exercício de atravessamento. Para a escritora santanense Tanise Carrali, esse conceito é literal. Recentemente radicada em Porto Alegre, Tanise carrega em sua bagagem não apenas cinco obras solo e diversas participações em antologias, mas a poética silenciosa da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, um lugar onde o silêncio e as entrelinhas dizem tanto quanto as palavras.

Atualmente vivendo em Porto Alegre, Tanise Carrali, 45 anos, é escritora, membro da Academia Santanense de Letras e professora de Arte da Rede Estadual. Embora agora atue como assessora na SEDUC/RS, na Divisão de Acompanhamento Pedagógico, ela mantém sua produção fincada no solo de Sant’Ana do Livramento. “Minha escrita nasce desse lugar de fronteira, não só geográfica, mas emocional”, revela. Para a fronteiriça, crescer em uma cidade binacional ensinou a percepção do “não dito”, o que hoje se reflete na construção de personagens e atmosferas introspectivas em suas obras.

Essa identidade aparece de forma quase instintiva em suas obras. A campanha, os animais e a natureza atravessam seu imaginário, resultando em homenagens sutis a figuras reais da fronteira. É o caso da costureira Dona Lobélia, personagem icônica de Livramento que, através da liberdade poética, ganha vida nas páginas de seu livro “Coração Cinza e Olhos de Mel”.

A mudança para a capital surge como um novo caminho prático: facilitar o acesso ao circuito literário e às oportunidades do mercado. No entanto, Tanise observa que o Rio Grande do Sul pode ser um ambiente exigente. Curiosamente, seu trabalho encontrou reconhecimento fora do Estado antes mesmo de se consolidar plenamente em solo gaúcho. Ela encara esse processo com a serenidade de quem escreve sobre temas densos, como afetos complexos, perdas e a finitude das coisas.

Sua sensibilidade foi moldada por uma vasta lista de “criaturas escreventes”. Nomes como Lygia Bojunga, Clarice Lispector, Conceição Evaristo e Manoel de Barros deixaram marcas que se refletem menos em um estilo rígido e mais na forma como ela procura tocar o outro através da linguagem. “Não escrevo para oferecer respostas, mas para sustentar perguntas”, afirma a autora, que vê no texto um caminho para deslocar o olhar do leitor.

Viver de escrita no Brasil, contudo, impõe desafios reais. Tanise destaca os altos custos de produção e a pressão do marketing digital, que muitas vezes se sobrepõe ao conteúdo. Ainda assim, ela mantém o otimismo ao observar o vigor das bienais pelo país, provando que o Brasil, ao contrário do que se diz, é um país que lê.

O futuro de Tanise é feito de movimento. Finalista do 7º Prêmio Ecos de Literatura na categoria Melhor Enredo, ela se prepara para levar seu infantojuvenil, “Uma Princesa de Quem Só se Ouviu Falar”, para grandes palcos: a Bett Brasil em maio e a Bienal Internacional do Livro de São Paulo em setembro. Entre a memória da infância rural e a nova rotina urbana, Tanise Carrali segue transformando a experiência humana em arte, provando que, não importa para onde o caminho leve, o olhar da fronteira sempre será sua bússola mais fiel.

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