Jornal A Plateia – Rádio RCC – Santana do Livramento

qui, 2 de abril de 2026

Maquiavel Aqui e Agora

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O italiano Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe no ano de 1513. O livro só foi publicado em 1532, após sua morte, que aconteceu em 1527.
Polêmica desde sua concepção, a obra, condensada em um pequeno volume, já figurou no Index de livros proibidos da Igreja Católica em 1959. Alguns entendem que ela prega más práticas políticas; outros, que simplesmente retrata o que realmente acontece nos bastidores do poder, seja este exercido em qualquer nível, desde o mais modesto empreendimento até os países ou movimentos geopolíticos.
Porém, O Príncipe trata essencialmente da natureza humana. Bastam algumas frases, que mais parecem presságios, para entender a atualidade da obra e sua vasta utilidade: “Quando uma pessoa evita ou ignora a competição, ela cria acomodação e passividade, qualidades que logo irão obrigá-la à submissão”.
Maquiavel observou as atitudes dos líderes de modo isento das teorias políticas, religiosas e filosóficas de seu tempo.
Concentrou-se na pessoa do Príncipe com rara perícia e perspicácia de modo que sua compreensão do poder permanecesse em um patamar atemporal.
As regras, para os poderosos, valem de acordo com as circunstâncias, e deixam de existir quando essas desaparecem. A lealdade unilateral também é lei: “Um vencedor não quer aliados suspeitos com os quais não pode contar nos momentos de adversidade.”
Passados mais de 500 anos, as práticas descritas e a metodologia aplicada permanecem as mesmas, vivas e fagueiras nos gabinetes ministeriais, palácios governamentais, escolas, ou em qualquer organização institucional. Como bem diz o surrado ditado popular. “Manda quem pode, obedece quem precisa”, e igualmente sua variante tão gasta quanto útil: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Por outro lado, ao conhecer O Príncipe temos a oportunidade de ter uma ideia mais aproximada de como funcionam as engrenagens do Sistema, suas ramificações, metástases e desenvoltura nas altas esferas. Sem conhecer o mecanismo, não temos como participar do jogo, ou sequer correr para fora do imundo tabuleiro para assim nos defender das “maracutaias” ou tramoias urdidas pelo manipulador safado.
Escândalos invariavelmente impunes parecem brotar da terra a cada dia, qual inço, contaminando com manipulação, falsidade e escárnio a verdejante democracia nativa, já em fase de pútrida decomposição.
“Existe uma distância tão grande entre como se age e como se deveria agir, que aquele que despreza o mundo real para viver num mundo imaginário encontrará antes sua ruína do que sua salvação.”
Enfim, ler Maquiavel permite compreender melhor as estratégias dos poderosos, e nos defender de suas armadilhas, além de agir com mais coragem, ousadia e assertividade perante a ordem instituída – que hoje anda um tanto desorganizada e praticamente destituída de ética ou senso comum.
Mas, como diz o próprio Maquiavel, “se o acaso determina a metade de nossas ações, ainda assim nos resta a outra metade para controlar”. E, por sobejas razões, não podemos permitir que a safadeza vença mais uma vez, deixando que a República afunde na lama movediça da corrupção aparentemente infinita e demolidora.

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