O Rio Grande do Sul intensificou, nos últimos meses, o debate e as ações voltadas à implantação da rastreabilidade bovina individual, alinhando o Estado ao Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Bubalinos (PNIB), coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O tema foi detalhado em entrevista exclusiva ao programa Panorama Agropecuário, da Rádio RCC FM 95.3, apresentado por Matias Moura e pelo diretor do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria Estadual da Agricultura, Dr. Fernando Groff.
Segundo Groff, o momento marca uma transição importante para a pecuária gaúcha, que deixa um modelo baseado predominantemente na rastreabilidade por lote para avançar rumo à identificação individual de todo o rebanho bovino.
“Hoje, a rastreabilidade conhecida pela maior parte dos produtores é aquela feita por meio da GTA, ou seja, por lote. Com o PNIB, o Brasil e o Rio Grande do Sul passam a discutir uma identificação individual, abrangente, que envolve todo o rebanho”, explicou.
Histórico da rastreabilidade no Estado
O Rio Grande do Sul já possui experiência consolidada com sistemas de rastreabilidade e certificação. Desde meados de 2005, o Estado opera o SISBOV, inicialmente voltado ao atendimento de exigências da União Europeia, em um período em que o Brasil ainda era classificado como área livre de febre aftosa com vacinação.
Além disso, existem propriedades certificadas para tuberculose e brucelose, especialmente na cadeia leiteira, inclusive na região da Fronteira Oeste, voltadas tanto à melhoria sanitária quanto à exportação de produtos.
“A grande diferença agora é que antes esses sistemas eram optativos e vinculados a mercados específicos. Com o Plano Nacional, a identificação passa a ser geral, como já ocorre em países vizinhos, a exemplo do Uruguai”, destacou Groff.
Ampliação do alcance e desafio estrutural
A mudança de escala é um dos principais desafios do processo. Atualmente, o Estado possui cerca de 280 mil propriedades com bovinos, número muito superior ao universo atendido pelos sistemas de certificação existentes até então.
“Saímos de algumas dezenas de propriedades certificadas para um universo de centenas de milhares. Isso exige planejamento, testes e construção gradual de um sistema robusto”, afirmou o diretor.
Reuniões técnicas e alinhamento com o Governo Federal
Em janeiro, duas reuniões técnicas marcaram o avanço do tema: nos dias 27 e 28, encontros realizados na Secretaria da Agricultura, em Porto Alegre, e na Fundesa, no Parque de Exposições Assis Brasil, reuniram representantes do Governo Federal e do Governo do Estado.
Os encontros tiveram como foco alinhar conceitos, discutir o funcionamento do PNIB e tratar de temas sensíveis como cadeia de custódia, segurança da informação e integração dos sistemas estaduais com a base nacional.
Projetos-piloto em andamento
Desde 2024, o Rio Grande do Sul iniciou a fase prática do processo, com projetos-piloto distribuídos em diferentes regiões do Estado. Atualmente, cerca de 50 propriedades participam dos testes, contemplando variados sistemas produtivos, como cria, recria, engorda, ciclo completo e produção de leite.
“A ideia é testar o sistema ao máximo, provocar interações, identificar falhas e corrigir antes de ampliar. Hoje emitimos aproximadamente 3.500 GTAs de bovinos por dia. Com a identificação individual, cada movimentação exigirá o registro do número de cada animal”, explicou Groff.
A expectativa é que os testes ganhem maior ritmo a partir de fevereiro e março, com avanço significativo até maio, quando novas propriedades poderão ser incluídas.
Como funcionará a identificação dos animais
O modelo definido segue padrões internacionais já consolidados. Cada animal será identificado por dupla identificação: um brinco visual e um brinco eletrônico (chip), instalados em orelhas distintas.
“O chip eletrônico é fundamental para garantir a rastreabilidade ao longo da vida do animal, reduzindo perdas e erros de leitura. Não faria sentido avançar nesse processo sem incorporar a identificação eletrônica”, ressaltou.
Outras tecnologias poderão ser utilizadas de forma complementar, como identificação por focinho ou protocolos específicos, mas a base obrigatória será a dupla identificação, para manter o sistema viável economicamente.
Integração com GTA e sistemas oficiais
Um dos pilares do novo modelo é a integração entre a GTA, o sistema estadual de defesa sanitária e a base nacional do Ministério da Agricultura. O Estado será responsável por validar e chancelar as informações, garantindo segurança e confiabilidade dos dados.
“O Ministério irá consolidar os dados de todo o país. O Estado desenvolve seu sistema, mas a informação básica sobe para a base nacional, permitindo uma visão clara do rebanho brasileiro”, explicou Groff.
Essa integração também permitirá que certificações privadas — como carne a pasto, protocolos ambientais ou sanitários — possam utilizar a base oficial, sem necessidade de duplicação de cadastros.
Benefícios para a cadeia produtiva
Além de atender exigências de mercados internacionais e fortalecer a imagem do Brasil como fornecedor confiável, a rastreabilidade traz benefícios diretos à gestão da propriedade rural.
“O produtor passa a ter uma ferramenta de gestão poderosa, com informações individuais sobre sanidade, manejo, movimentação e desempenho produtivo. Não é apenas uma exigência de mercado, é uma oportunidade de evolução”, afirmou o diretor.
Custos e discussão sobre financiamento
O custeio do sistema é um dos pontos mais sensíveis do processo e ainda está em fase de debate. No momento, os projetos-piloto contam com recursos do Estado e parcerias com empresas fornecedoras de identificadores e equipamentos.
“No futuro, uma parte do custo deverá ser do produtor, mas estamos falando de um investimento equivalente, em média, ao que se gasta em um ano de vacinação. O identificador acompanha o animal por toda a vida”, explicou Groff.
Desafios operacionais
Entre os principais desafios estão a conectividade no campo, a necessidade de leitores eletrônicos, especialmente em frigoríficos, e a definição de prazos curtos para o registro das informações após a emissão da GTA.
“Hoje o produtor tem até 30 dias para confirmar uma movimentação. Para a rastreabilidade individual, esse prazo precisa ser reduzido para que o sistema faça sentido”, destacou.
Prazo nacional e próximos passos
De acordo com o Plano Nacional, a identificação individual de bovinos e bubalinos deverá se tornar obrigatória a partir de 2032. Até lá, os estados devem estruturar seus sistemas e avançar gradualmente na adesão.
“A meta é que o Rio Grande do Sul esteja adiantado nesse processo, com um sistema testado, seguro e confiável, posicionando bem o Estado e a cadeia produtiva gaúcha”, concluiu Groff.
Nos próximos meses, a Secretaria da Agricultura pretende ampliar o diálogo com produtores, entidades e municípios, levando o debate para o interior do Estado e consolidando a construção coletiva do Plano de Rastreabilidade Bovina no Rio Grande do Sul.
