Jornal A Plateia – Rádio RCC – Santana do Livramento

qui, 5 de fevereiro de 2026

Por Carlos Higgie: Cidadania e mídia (II)© ANA MONTERO

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Cidadania e mídia (II)

Um percurso da pólis grega ao mundo midiático

© ANA MONTERO

Parte 2 –  Estados modernos, meios e esfera pública

 

 

Dando continuidade a este percurso sobre cidadania e mídia, voltamos o olhar para a relação entre os Estados modernos e os meios tecnológicos de comunicação. Compreender como a cidadania se constituiu ao longo da modernidade exige reconhecer que esse processo esteve profundamente articulado às formas de mediação comunicacional que acompanharam a organização do poder, do território e da vida pública.

A partir do século XVII, com a consolidação dos Estados modernos, o indivíduo passou a se reconhecer como cidadão de um território delimitado. Esse novo pertencimento político esteve associado à formação de instituições, leis comuns e mecanismos de organização do poder. Tratou-se de um período marcado por intensos processos de racionalização da vida social, nos quais os meios de comunicação desempenharam um papel central.

A imprensa, surgida ainda no século XV, foi decisiva nesse processo histórico. Ao multiplicar textos e ampliar a circulação de ideias religiosas, políticas e científicas, contribuiu para a formação das línguas nacionais e para a construção de imaginários coletivos. Jornais, panfletos e livros ajudaram a dar coesão simbólica aos Estados modernos e a tornar visível a vida pública. A cidadania política moderna não se estruturou apenas nas instituições, mas também nos espaços midiáticos onde circulavam informações, opiniões e debates.

Com o avanço das tecnologias de comunicação, esse movimento se intensificou. A imprensa periódica, o rádio e a televisão ampliaram o alcance da esfera pública, conectando cidadãos a acontecimentos distantes no espaço e no tempo. Esses meios passaram a mediar a relação entre Estado e sociedade, reorganizando as formas de participação e de formação da opinião pública.

Ao longo do século XX, a política deixou de se expressar exclusivamente nos parlamentos e passou a disputar sentidos nos espaços midiáticos. A visibilidade tornou-se um elemento central do exercício do poder, e a experiência de ser cidadão passou a depender cada vez mais da relação com as informações que circulam pelas mídias. Informar-se, interpretar discursos e posicionar-se diante dos acontecimentos tornaram-se práticas essenciais da vida cidadã.

Nesse cenário, torna-se evidente a importância de desenvolver competência midiática para o exercício da cidadania em sociedades mediadas. Participar da vida pública envolve saber ler criticamente as mensagens, reconhecer interesses em jogo e compreender os processos de produção simbólica. A educação mediática é um elemento fundamental para fortalecer a participação democrática, ampliando as possibilidades da cidadania política sem substituí-la.

Hoje, com a expansão das plataformas digitais, as fronteiras da esfera pública tornam-se ainda mais fluidas. Os meios tecnológicos atravessam as instituições e o cotidiano, redefinindo a experiência de ser cidadão. Na próxima publicação, avançaremos nesse percurso, explorando como a cidadania política moderna dialoga com a emergência da cidadania midiática em um mundo cada vez mais interconectado.

 

Ana Montero

Jornalista (SC00778JP)

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