Para quem cresceu nos anos 2000 no Rio Grande do Sul, Mauren Motta não é apenas uma lembrança da televisão: é parte da memória afetiva de uma geração. Foi o rosto e o cérebro por trás de O Patrola, na RBS — e hoje, para muitas mulheres 50+, tornou-se uma referência pela forma como traduz o presente em reflexão.
Nas tardes de sábado, o programa ia muito além do entretenimento leve: reunia cultura, comportamento, música, moda e um olhar atento para o que estava acontecendo no mundo. Era assunto na semana seguinte. Virou referência.
Formada em Publicidade e Propaganda e posteriormente em Jornalismo, Mauren construiu uma trajetória marcada por inquietação, autonomia e recusa a caminhos prontos. Ainda jovem, iniciou na televisão e teve experiência internacional na TV Globo em Nova York, onde participou da produção do Manhattan Connection e atuou em projetos ligados ao jornalismo e ao audiovisual. De volta ao Brasil, integrou equipes do Fantástico, em São Paulo, e trabalhou próxima a nomes como Zeca Camargo e Regina Casé. No Rio Grande do Sul, além da televisão, colaborou com o jornal Zero Hora, especialmente no caderno Donna, teve passagem pela Rádio Atlântida e produziu conteúdo para diferentes plataformas.
A partir de 2010, ao deixar a televisão, iniciou nova fase profissional. Passou a atuar como estrategista de conteúdo e fundou a MM Conteúdo, empresa voltada à criação de projetos e comunicação para marcas, apostando desde cedo no potencial da internet, quando esse movimento ainda engatinhava no Brasil — antes das redes sociais moldarem o consumo de conteúdo. Criou também o grupo Conexão VRS, voltado ao empreendedorismo, que segue ativo até hoje.
Atualmente, entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, a jornalista vive uma fase autoral como criadora de conteúdo. Seu trabalho dialoga especialmente com mulheres 50+ e aborda temas ligados a comportamento, identidade, escolhas de vida e cultura. Nas redes, construiu uma linguagem própria: reage rápido aos acontecimentos, mas vai além do fato e oferece contexto, interpretação e leitura cultural do presente.
Em entrevista exclusiva ao jornal A Plateia, Mauren fala sobre trajetória, método e visão de mundo.
A Plateia — Você marcou uma geração na televisão no RS e hoje vive uma nova fase nas redes e no jornalismo digital. Como foi essa transição e o que essa etapa te permite fazer que antes não era possível?
Mauren Motta —
Minha fase na televisão foi muito marcante, mas já faz mais de 20 anos. O Patrola começou entre 1999 e 2000, e eu saí da TV em 2010. Com o distanciamento do tempo, vejo esse período como o primeiro capítulo de uma trajetória que seguiu em transformação constante.
Depois de deixar a televisão, passei a atuar como estrategista de conteúdo para marcas, especialmente entre 2010 e 2017, quando esse tipo de trabalho ainda nem tinha nome definido. Eu pensava estratégia, narrativa e posicionamento em um momento em que muita coisa ainda estava sendo construída.
Mais tarde, criei o grupo Conexão VRS, no Rio Grande do Sul, voltado ao empreendedorismo e que existe até hoje. Esse projeto me aproximou de temas ligados à inovação, tecnologia e comportamento digital, e me levou a experiências como o contato com o ecossistema do Vale do Silício. Foi a partir daí que meu olhar para o digital se aprofundou.
A curadoria de conteúdo, como aparece hoje nas minhas redes, é mais recente, desde que me mudei para São Paulo. Sempre relutei em transformar isso em trabalho formal, porque minhas redes eram um espaço híbrido entre vida pessoal e repertório profissional. O que mudou foi assumir esse lugar com mais consciência.
Uso a inteligência artificial como ferramenta. Mas o essencial continua sendo repertório, disciplina e pensamento próprio. Leio muito, estudo todos os dias e começo a manhã cedo para entender o que faz sentido compartilhar.
Essa fase atual me permite algo que antes não era possível: integrar tudo o que eu sou e tudo o que vivi profissionalmente, com mais autonomia, mais verdade e mais liberdade de linguagem.
A Plateia — Você tem um jeito muito particular de olhar para os acontecimentos, quase sempre indo além do fato e chegando ao que ele simboliza. Quando percebeu que esse tipo de leitura era a sua marca?
Mauren Motta —
Não foi consciente. Simplesmente aconteceu. Acho que isso tem muito mais a ver com quem eu sou do que com uma decisão editorial. Hoje somos impactados o tempo todo por releases, matérias prontas e cópias repetidas. Informação não falta — o que falta é leitura, repertório e alguém disposto a ir além do fato.
Sempre fui opinativa, tenho personalidade forte e nunca consegui sustentar um personagem que não fosse verdadeiro. Transparência e sinceridade sempre fizeram parte do meu trabalho. Não tenho paciência para construir uma imagem artificial ou falar de um lugar que não é genuíno para mim.
Esse olhar mais simbólico sobre os acontecimentos nasce da vivência. Da vontade de relacionar o que acontece no mundo com aquilo que eu vivi, observei ou senti. A vulnerabilidade nunca foi uma estratégia: é um modo de existir e de comunicar.
Não planejei construir uma marca pessoal. Ela foi acontecendo. Meu olhar é esse cruzamento entre o fato e o que ele revela sobre comportamento, cultura e sobre nós mesmos. Escrevo assim porque é assim que enxergo o mundo.
A Plateia — Você reage muito rápido aos acontecimentos, mas sem cair na superficialidade e chegando ao significado do fato. O que você enxerga ali que muita gente não percebe de imediato?
Mauren Motta —
Vou ser honesta: sou jornalista raiz. Gosto de dar furo, de ser a primeira, dessa adrenalina do agora. Sempre gostei do que está acontecendo neste minuto. Não é que eu não valorize pauta fria — eu faço também. Mas o que realmente me move é a pergunta: o que ainda não foi dito?
Sou inquieta. Paro o que estou fazendo quando algo acontece. E isso, inclusive, me desafia, porque não consigo desligar. Posso até tirar férias do trabalho formal, mas o botão da comunicação nunca desliga.
Te dou um exemplo claro: estava de férias, almoçando com amigas, quando vi a notícia da separação da Paolla Oliveira. Tentei ignorar. Não consegui. Saí do restaurante, fui para o carro e comecei a pesquisar, entender o contexto e pensar no que eu poderia dizer além do fato.
Escrevi minha opinião, não apenas a notícia. E viralizou. Ali tinha timing, leitura de contexto e assinatura pessoal. Essa é uma marca minha. Não consigo ver uma notícia passar. Se algo acontece, quero entender, interpretar e contar do meu jeito.
A Plateia — Existe algum tipo de tema que naturalmente te atravessa e quase sempre acaba virando texto?
Mauren Motta —
Hoje, meu olhar está muito voltado para os assuntos da minha geração, especialmente para as mulheres 50+. Existe um discurso recorrente que associa essa fase da vida à perda, ao encerramento, à ideia de que é tempo de administrar o que sobrou. Esse olhar não me interessa.
O que me move é justamente o contrário: pensar nos próximos 50 anos. Quem ainda posso ser, o que ainda posso construir, experimentar, aprender e desejar.
Por isso acompanho de perto comportamentos, conceitos e novas leituras ligadas a esse universo. Sempre que surge algo que amplia essa perspectiva, tento transformar em texto, em reflexão, em provocação.
Minha intenção é oferecer outro ponto de vista: mais leve, mais vivo, mais potente. Um olhar que acolha, provoque e amplie horizontes, fazendo quem lê perceber que essa fase pode ser muito mais rica e interessante do que normalmente nos fazem acreditar.
A Plateia — Depois da experiência na televisão e hoje atuando de forma mais autoral no digital, o que mudou na sua compreensão sobre o papel de quem comunica?
Mauren Motta —
Minha experiência na televisão sempre foi muito positiva porque eu sempre tive liberdade criativa. Nunca recebi pauta pronta. Sempre fui a mulher das ideias. No Patrola, eu fazia curadoria, criava eventos, pensava formatos, séries, ações. O conteúdo vinha de mim.
O que muda hoje não é a liberdade, é a velocidade. A inteligência artificial acelerou processos que antes eram mais lentos: pesquisa, organização de informações, revisão, formatação. Isso me dá mais tempo para pensar, aprofundar e criar melhor.
Existe muito medo de que a inteligência artificial vá acabar com o jornalismo. Eu discordo. Não existe inteligência artificial sem um bom criador por trás. A máquina não cria sozinha: ela precisa de repertório, intenção e ética.
A máquina não me domina. Sou eu que domino a máquina. E quero que mais mulheres estejam nessa conversa. Porque tudo o que alimenta a inteligência artificial vem da colaboração humana — e, se poucas mulheres participam, esse olhar tende a ficar masculinizado.
Para mim, cristalizar não é uma opção. Seguir em frente é. E fazer isso em diálogo com o presente é parte essencial da minha forma de trabalhar e de estar no mundo.
Em um tempo marcado por excesso de informação e pouca escuta, a trajetória de Mauren Motta aponta para outro caminho: o da interpretação, da sensibilidade e da autoria. Seu trabalho segue sustentado por inquietação, repertório e uma recusa firme em aceitar respostas fáceis para um mundo cada vez mais complexo.
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