Por décadas, os cobradores foram parte fundamental do transporte coletivo urbano no Brasil. Além de receberem as tarifas em dinheiro, atuavam como ponto de apoio ao usuário, orientando passageiros, auxiliando idosos e pessoas com deficiência e colaborando com o motorista na rotina operacional dos veículos. No entanto, nas últimas décadas, essa função vem sendo gradualmente eliminada em diversas cidades do país, principalmente em razão da adoção de sistemas eletrônicos de pagamento e da busca por redução de custos operacionais.
Transformação tecnológica e recuo da função
A introdução de sistemas automáticos de bilhetagem eletrônica — como cartões e pagamentos por aproximação — reduziu significativamente a necessidade do pagamento em dinheiro dentro dos ônibus. Segundo estimativas da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), pelo menos 56 cidades brasileiras já dispensaram cobradores em parte ou na totalidade de suas linhas como parte desse processo de modernização, tendência que segue em expansão no país.
Em capitais como o Distrito Federal, mais de 5.300 cobradores enfrentam o risco de perder seus postos de trabalho com o fim do pagamento em dinheiro nos ônibus. Sindicatos locais alertam para os impactos sociais da medida e defendem políticas de requalificação profissional e realocação desses trabalhadores.
Impactos socioeconômicos
A eliminação gradual dos cobradores provoca efeitos diretos no mercado de trabalho. Em diversas cidades, muitos profissionais foram demitidos, enquanto outros aderiram a programas de requalificação ou migraram para novas funções, como motorista ou agente de bordo. Em Fortaleza (CE), por exemplo, entre outubro de 2018 e agosto de 2019, cerca de 931 cobradores foram desligados das empresas de transporte, o que representou aproximadamente 30% dos postos de trabalho da função naquele período.
Além do desemprego, sindicatos e usuários apontam que a retirada dos cobradores pode aumentar a sobrecarga dos motoristas, que passam a acumular múltiplas responsabilidades — desde a condução do veículo até a liberação de embarque, verificação de cartões e orientação aos passageiros. Essa sobreposição de funções, segundo críticos, pode comprometer a segurança e a eficiência do serviço.
O cenário no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, a transformação ocorre de forma acelerada, especialmente na capital, Porto Alegre. Dados ligados ao transporte coletivo indicam que cerca de 68% do sistema já opera sem cobradores, e a projeção é de que a função seja totalmente extinta até o final de 2026 no sistema municipal.
Entre fevereiro de 2022 e meados de 2023, o número de cobradores em Porto Alegre caiu de aproximadamente 1.250 para 895 profissionais, uma redução de quase 28,4%. Parte desses trabalhadores optou por cursos de formação e migração para outras funções, enquanto outros receberam verbas indenizatórias.
Nas empresas públicas e privadas da capital, a redução ocorreu de forma desigual. Na Carris, por exemplo, mais de 31% dos cobradores foram retirados das operações, com adesão significativa a programas de desligamento voluntário. Além da capital, diversas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre e do Vale do Sinos já operam há anos sem cobradores, consolidando uma tendência regional de extinção da profissão.
Desafios para usuários e políticas públicas
Especialistas em mobilidade urbana destacam que a eliminação dos cobradores não é, por si só, positiva ou negativa, mas reflete transformações tecnológicas e econômicas em curso. Ainda assim, os impactos sociais — como a perda de empregos e a sobrecarga de funções para os trabalhadores remanescentes — exigem políticas públicas que ofereçam alternativas concretas, como programas de qualificação profissional e apoio à recolocação no mercado de trabalho.
Para os usuários, a adaptação aos sistemas eletrônicos de pagamento ainda apresenta dificuldades, especialmente para idosos e pessoas que dependem do uso de dinheiro em espécie. Nesse contexto, o debate sobre a presença humana no transporte coletivo — seja por meio de cobradores ou de agentes de apoio ao usuário — permanece central nas discussões sobre qualidade, segurança e equidade no transporte urbano brasileiro.
