Hoje, o mês de setembro transforma as ruas de Sant’Ana do Livramento. Cavalos, pilchas, bandeiras e grupos tradicionalistas passam a fazer parte da paisagem da cidade. Mas o uso da vestimenta gaúcha nem sempre foi recebido com o mesmo respeito.
Na década de 1940, em um período em que os costumes urbanos eram fortemente influenciados por referências de fora do Estado, quem se vestia como o homem do campo podia ser alvo de comentários e preconceito. Termos como “baicuera”, “grosso”, “caipira” e “guascão” eram utilizados para desqualificar aqueles que mantinham os costumes do interior.
Foi nesse cenário que jovens passaram a se mobilizar para valorizar a cultura do Rio Grande do Sul. Entre eles estava o santanense João Carlos Paixão Côrtes, estudante do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.
Em agosto de 1947, Paixão Côrtes e outros estudantes organizaram uma mobilização para resgatar as tradições gaúchas. No colégio, foi criado o primeiro Departamento de Tradições Gaúchas e realizada a 1ª Ronda Crioula, com programação entre os dias 7 e 20 de setembro.
A iniciativa reuniu bailes, concursos de poesia, palestras, provas campeiras e outras atividades. Também foi nesse contexto que surgiu a Chama Crioula, que posteriormente se tornaria um dos principais símbolos das comemorações de setembro.
A mobilização dos jovens ajudou a fortalecer um movimento que cresceu ao longo dos anos e ganhou reconhecimento institucional. Em 1964, a Semana Farroupilha foi oficializada no calendário do Rio Grande do Sul por meio da Lei nº 4.850.
Um novo momento em Livramento
Em Sant’Ana do Livramento, as comemorações também foram ganhando novos formatos ao longo das décadas. A organização do movimento tradicionalista no município ganhou força com a criação de entidades que passaram a reunir pessoas interessadas em preservar e praticar os costumes gaúchos.
Entre elas está o CTG Fronteira Aberta, fundado em 11 de maio de 1955, no Clube Caixeiral, por um grupo de tradicionalistas. A entidade teve Alcides Pavão Martins como primeiro patrão e adotou o lema “Lealdade e Franqueza”, de autoria do sócio fundador Otacilio Machado.
O Fronteira Aberta passou a integrar esse processo de fortalecimento do tradicionalismo local e, em 1959, criou seu primeiro grupo de danças folclóricas. A entidade mantém atividades tradicionalistas desde sua fundação e, atualmente, conta com invernadas e departamentos voltados à cultura gaúcha.
Um dos momentos marcantes ocorreu em 1958, com a realização de um desfile a cavalo durante a Semana Farroupilha.
Naquele ano, homens da campanha participaram montados a cavalo, enquanto o desfile reunia entidades tradicionalistas, clubes esportivos, estudantes e representantes de Rivera. A transmissão pela rádio ficou a cargo de Velocínio Silveira, conhecido como “Lenço Branco”.
Entre as entidades presentes estavam o CTG Fronteira Aberta, a Estância Velha da Tradição e representantes da Sociedade Criolla de Rivera. Também participaram clubes como 14 de Julho, Grêmio, Fluminense e Armour, além de estudantes de escolas locais.
O tradicionalismo continuou se estruturando nos anos seguintes. Nas escolas, as invernadas também começaram a ganhar espaço, com destaque para o grupo Negrinho do Pastoreio, do Colégio Moysés Vianna, criado pela professora Relda Aguirre.
A participação feminina nos desfiles a cavalo também foi sendo ampliada ao longo dos anos, acompanhando o crescimento e a organização do movimento tradicionalista no município.
De uma época em que a pilcha podia ser motivo de deboche até o momento em que passou a representar orgulho e pertencimento, a cultura gaúcha percorreu um longo caminho. Em Livramento, essa construção foi feita por diferentes gerações, entidades, escolas e famílias que ajudaram a manter a tradição presente na cidade.

