Uma advocacia sem rótulos

A Drª. Fernanda Diez fala sobre os diferentes caminhos da profissão, os desafios de ocupar espaços tradicionalmente associados aos homens e a importância de incentivar novas gerações de advogadas

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A advocacia não se limita a uma área, a um espaço ou a um único perfil profissional. Para a advogada Fernanda Diez (OAB/RS 107.536), construir uma trajetória no Direito também significa ter liberdade para explorar diferentes campos, enfrentar novos desafios e ocupar os espaços escolhidos ao longo do caminho. 

Com especializações em Direito da Mulher, Execução Criminal e Tribunal do Júri, a advogada transita por diferentes frentes da profissão e encontrou justamente nessa diversidade uma forma de exercer a advocacia em que acredita: sem rótulos e sem limitações impostas por gênero.

Nesta entrevista, a Dra Fernanda fala sobre sua trajetória, a experiência de atuar em júris e outros ambientes de alta responsabilidade, os preconceitos que ainda podem surgir diante da presença feminina e a importância de mostrar às jovens que ingressam no Direito que não existe um lugar predeterminado para uma mulher na Advocacia.

A advocacia permite diferentes formas de atuação, desde o escritório até o fórum, o júri e outros espaços. O que significa, para você, poder construir uma carreira sem se limitar a uma única área do Direito?

Significa, acima de tudo, liberdade profissional. Sempre gostei de estudar e de conhecer diferentes áreas do Direito, e isso se refletiu também na minha formação. Entre outras especializações, sou pós-graduada em Direito da Mulher e em Execução Criminal e Tribunal do Júri, áreas distintas que representam muito da advocacia em que acredito: uma advocacia sem rótulos. Poder transitar por diferentes áreas me permite compreender o Direito de forma mais ampla e estar presente onde houver um direito que precise ser defendido.

Ao longo de sua trajetória, quais foram os espaços da advocacia que mais a  desafiaram e também contribuíram para seu crescimento profissional?

Sem dúvida, os espaços que exigem uma atuação mais imediata e intensa estão entre os que mais me desafiaram: a tribuna, o Tribunal do Júri, as madrugadas em delegacias e o contato com o sistema prisional. Mas também cresci muito com as demais áreas em que atuo, porque cada uma exige uma forma diferente de olhar para o Direito e, principalmente, para as pessoas. Essa diversidade de experiências me trouxe mais maturidade, responsabilidade e sensibilidade profissional.

A presença feminina na advocacia vem crescendo, mas ainda existem áreas e espaços em que as mulheres enfrentam mais resistência. Você já vivenciou situações assim em sua carreira?

Sim. Já enfrentei resistência e inclusive recebi comentários críticos nas redes sociais relacionados à minha atuação profissional. Essas experiências me mostraram que ainda existem expectativas sobre quais espaços ou áreas seriam mais adequados para uma mulher. Procuro não transformar essas situações em confronto, mas em reflexão. Para mim, a melhor forma de romper esses estereótipos é continuar ocupando os espaços que escolhemos, com competência, responsabilidade e segurança no trabalho que realizamos.

A atuação em júris é uma das frentes em que você está presente. Como é ocupar esse espaço como mulher e exercer a defesa diante do plenário?

O Tribunal do Júri é um espaço de enorme responsabilidade e que exige preparo, firmeza e equilíbrio. Quando subo à tribuna, estou ali como advogada, consciente da responsabilidade que cada palavra e cada decisão carregam. Ao mesmo tempo, tenho consciência da importância de uma mulher ocupar esse espaço. A tribuna exige conhecimento, presença e respeito, e acredito que nós, mulheres, podemos ocupá-la com a nossa própria forma de exercer a Advocacia.

Você já recebeu críticas por ser uma mulher atuando na defesa em júris. O que essas situações a ensinaram sobre os estereótipos que ainda existem dentro da profissão?

Essas situações me mostraram que ainda existem estereótipos não apenas sobre os espaços que uma mulher deve ocupar, mas também sobre o próprio papel da defesa. Muitas vezes, o exercício da defesa é confundido com concordância com a conduta atribuída à pessoa defendida. Mas exercer a defesa não significa concordar com uma conduta ou defender a impunidade; significa assegurar que a lei seja corretamente aplicada e que as garantias sejam respeitadas. E acredito que nós, mulheres, não devemos precisar justificar a área do Direito que escolhemos para exercer nossa profissão.

Em sua visão, uma mulher precisa adotar uma postura diferente para conquistar respeito e autoridade dentro da advocacia?

Não acredito que uma mulher precise mudar sua forma de ser para conquistar respeito ou autoridade. A Autoridade profissional se constrói com conhecimento, preparo, ética, responsabilidade e firmeza. Cada mulher pode exercer a advocacia preservando sua própria identidade. O que precisa mudar não é a nossa forma de ocupar esses espaços, mas a ideia de que precisamos nos adaptar a um determinado padrão para sermos respeitadas.

Existe ainda uma ideia de que determinadas áreas do Direito combinam mais com homens ou mulheres? Como romper com esses rótulos?

Acredito que essa ideia ainda exista, mesmo que muitas vezes de forma sutil. Mas o Direito não deve ter espaços definidos por gênero. Podemos atuar no Tribunal do Júri, na execução criminal, no Direito da Mulher, no Direito de Família, Previdenciário ou em qualquer outra área que escolhermos exercer. Rompemos esses rótulos quando a presença feminina nesses espaços deixa de causar estranhamento e passa a ser reconhecida pelo que realmente deve importar: a competência profissional.

Que importância você acredita que tem para uma jovem advogada ver outras mulheres ocupando espaços como o júri, a tribuna e diferentes áreas da profissão?

Acredito que seja fundamental, porque representatividade também amplia horizontes. Quando uma jovem advogada vê outras mulheres no Júri, na tribuna, em uma delegacia, em um presídio ou atuando nas mais diversas áreas do Direito, ela percebe que aqueles espaços também podem ser seus. Para mim, esse é o maior significado: mostrar às novas gerações que não existe um lugar predeterminado para a mulher na Advocacia. Cada mulher pode construir a própria trajetória e escolher os espaços que deseja ocupar.

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