Quando a dívida cresce mais do que a produção: um alerta para o crédito rural brasileiro

Crédito: Divulgação/Redes Sociais
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O crédito rural foi criado para financiar a produção, não para inviabilizar quem produz.

Para ilustrar essa realidade, apresento um caso real de um produtor rural da região Central do Rio Grande do Sul, cujo nome será preservado por respeito à sua privacidade.

Em 15 de julho de 2016, esse produtor possuía uma dívida de aproximadamente R$ 304 mil. Na época, a saca da soja valia R$ 89,17, o que significava que eram necessárias 3.409 sacas de soja para quitar integralmente a obrigação.

Ao longo dos anos, diante das dificuldades enfrentadas pelo setor e da incidência de correção, juros, multas, honorários e custas judiciais, essa dívida foi crescendo.

Em maio de 2025, ela havia alcançado R$ 2,82 milhões.

Nesse mesmo período, a saca da soja passou para R$ 132,13. Apesar da valorização do produto, o produtor passou a precisar de 21.342 sacas de soja para quitar a mesma dívida.

Esse dado revela a verdadeira dimensão do problema.

Enquanto a dívida aumentou mais de nove vezes em valores nominais, o preço da soja cresceu apenas cerca de 48%. O mais preocupante é que a capacidade de pagamento do produtor despencou: a quantidade de soja necessária para quitar o débito aumentou mais de seis vezes.

No campo, essa é a conta que realmente importa. O produtor paga suas dívidas com produção, e não com índices financeiros.

O detalhamento da cobrança mostra que uma parcela significativa do valor final decorre da incidência de juros, multa, honorários advocatícios e custas processuais, tornando a dívida praticamente impagável.

Infelizmente, esse não é um caso isolado.

Ele representa milhares de produtores gaúchos que enfrentam uma realidade semelhante. E a situação do Rio Grande do Sul é ainda mais grave. Nos últimos anos, o Estado sofreu sucessivas estiagens severas e, mais recentemente, a maior enchente de sua história. Agora, novamente, diversas regiões enfrentam problemas climáticos que comprometem a produção, reduzem a renda e dificultam ainda mais o cumprimento das obrigações financeiras.

Não se trata de defender inadimplência ou descumprimento de contratos. Trata-se de reconhecer que nenhum sistema de crédito é sustentável quando a dívida cresce muito mais rapidamente do que a capacidade de geração de renda da atividade financiada.

Sem produtores economicamente viáveis, não há produção, não há segurança alimentar e não há desenvolvimento regional.

É preciso construir soluções que preservem o equilíbrio dos contratos, permitam a renegociação das dívidas em situações excepcionais e restabeleçam a capacidade de investimento e produção no campo.

A recuperação da agricultura gaúcha passa, necessariamente, pela recuperação financeira dos seus produtores.

Jerônimo Goergen
Presidente da ACEBRA – Associação das Empresas Cerealistas do Brasil

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