Por aqui, não é raro encontrar uma mesa de almoço com um brasileiro de um lado, um uruguaio do outro e, entre eles, décadas de amizade, histórias compartilhadas e um amor em comum pelo futebol. Em muitas casas, a rivalidade fica restrita aos 90 minutos de jogo. Terminada a partida, el asado, nome dado pelos nossos hermanos uruguaios ao tradicional churrasco, continua reunindo amigos e familiares, enquanto o mate segue circulando e a convivência permanece a mesma.
Conhecida como a Fronteira da Paz, a região vive uma realidade única. Basta atravessar uma rua para mudar de país. Dar alguns passos para ouvir o português se misturar ao espanhol em um idioma que ganhou identidade própria: o famoso “portunhol”.
Há um ditado muito conhecido por quem vive nesta região que resume bem essa mistura de culturas: “Filho de pai brasileiro, hijo de madre oriental.” E ele faz sentido. São incontáveis os exemplos de famílias que carregam as duas nacionalidades na mesma árvore genealógica, unindo tradições, sotaques e costumes de ambos os lados da fronteira.
Há filhos de pai brasileiro e mãe uruguaia. Há irmãos que torcem para seleções diferentes. Há amigos que cresceram juntos em lados opostos da linha divisória. E há um cenário que só quem vive aqui conhece: o Parque Internacional, onde é possível estar em dois países ao mesmo tempo, com um pé no Brasil e outro no Uruguai.
Quando chega a Copa do Mundo, essa mistura ganha ainda mais significado. As bandeiras aparecem nas janelas, os palpites tomam conta das conversas e a rivalidade histórica entre brasileiros e uruguaios volta a fazer parte do cotidiano. É tempo de vestir a camisa, defender as próprias cores e provocar os amigos do outro lado da fronteira.
E talvez seja justamente isso que torne a Copa tão especial por aqui. Durante algumas semanas, Brasil e Uruguai se enfrentam nos gramados e nas resenhas entre amigos. Mas, terminado o jogo, tudo volta ao normal. Afinal, na fronteira, a rivalidade dura apenas 90 minutos; a amizade atravessa gerações.

