Leitura e releitura de ALTAIR PIMPÃO, do livro EU SOU AUGUSTO de Carlos Higgie
Augusto e Letícia caminhavam por um arroio que estava secando. Ela resolveu falar do diário que o pai havia deixado, escrito num caderno simples, vulgar.
Ele quis saber se poderia ler o diário e Letícia disse que talvez um dia.
Com água até os joelhos róseos, que contrastavam com o corpo branco, ela contou que o pai foi um revolucionário. Na juventude, lutou contra Mussolini e teve que fugir da Itália.
Foi para Paris e lá, quando ouviu, num bar, um alemão dizer que não ia demorar para a Alemanha invadir Moscou. Ele afirmou que os alemães nem com binóculo de longo alcance iam ver Moscou. O alemão não gostou e, irritado, tentou acabar com a sua vida. Como estava na França clandestino, não podia se envolver em confusão e tratou de escapar. Ela não sabia como é que ele conseguiu embarcar num navio e veio para a América do Sul. Passou um tempo no Brasil e depois foi para o Uruguai, onde se apaixonou pela mãe dela. Da união veio ela. Em seguida, disse que o pai morreu prisioneiro.
̶ Era comunista?
̶ Era tudo, menos comunista. Morreu prisioneiro de uma cadeira de rodas. Quando perdeu a mobilidade, foi definhando até morrer.
Augusto só encontrou uma fala para consolá-la: “A gente nasce para morrer”.
