“e penso em Maria Helena
que hoje trabalha das duas às dez
e deve estar dormindo
sonhando talvez
os mesmos sonhos cinzentos
Augusto Silva Muñoz
que merda também
todas as ilusões pelo chão
uma mulher
um trabalho
a vida por diante
e a morte subindo lentamente
como se não tivesse pressa
e não dever ter
parece que foi ontem mesmo
tinha a alma azul
e rios e cascatas e arco ̶íris
era o tempo da adolescência
da primeira juventude
gris e muito louca
de medos e descobrimentos
obscuros traumas que de quando em quando
floresciam e eram gargalhada enorme e aberta
e deixavam de ser
ela no entardecer
deitada sobre as folhas mortas
salpicada por mágicos resplendores
os olhos entrecerrados medrosos
a pele estalando suspiros
toda a sensualidade derramando-se
seus olhos seu corpo
toda sua sensualidade
chamando suplicando reclamando
ela desnuda no bosque solitário
deitada sobre as folhas macias
e meu corpo descobrindo
as claras escuras
trilhas do prazer
barreiras da pureza.
Versos de Augusto, dedicados a uma mulher casada que o fez esquecer o nono mandamento!
