Em Montevidéu, em dia e ano que não se sabe, aconteceu um papo de boteco entre Augusto, Estrela e Oscar enquanto esperavam o início de outra aula ou o fim da tarde. Augusto disparou que em determinadas etapas de sua vida, melhor dizendo dias, precisava se sentir vivo.
̶ Bato a cabeça contra a parede, quero ficar comigo mesmo, com minha imagem, cheiro minhas axilas, buscando-me.
Estrela o chamou de narcisista e louco.
̶ Talvez sim, talvez não, guria.
Oscar sentenciou que alguma coisa não funcionava bem na cabeça do colega.
̶ Não é isso. É o mundo. Acho que tudo é mentira. Alguém, talvez eu mesmo, esteja sonhando tudo, tudo aquilo que acreditamos ser a mais pura realidade. Alguém sonha e nós pensamos que vivemos. Tudo tem sido, desde o início dos tempos, um estúpido sonho. Somos os sonhos que alguém está sonhando. A história é um pesadelo, nosso século não existiu, assim como não existiu nenhum outro tempo.
Estrela, com cara incrédula e, ao mesmo tempo, de deboche sorriu e perguntou: “Não existe?”.
̶ Não existe. Não existiu Roma, nem os gregos, não aconteceu a Primeira Guerra Mundial e muito menos a Segunda. Stalin não matou ninguém, Hiroshima e Nagasaki são roteiros de um filme de terror, não há dissidentes em lugar nenhum. Vietnã foi uma novela sem fim, Chile não existiu nem antes, nem depois de Allende e muito menos Pinochet. América Latina é só um desenho…
Estrela o cortou entre divertida e irritada: “E estás muito além de louco, Augusto. Vamos ter que te internar num hospício a qualquer momento! Tudo foi e tudo será. Mas, tu queres apagar, apagar-te, livrar-te de todos os problemas que tu mesmo inventas, fugir das realidades, fugir das responsabilidades”.
̶ Responsabilidades?
̶ Sim. Como ser humano que, acho, tu és, tens que saber e opinar, saber e entender tudo o que se passa ao seu redor.
̶ Olha, Estrela, em boca fechada não entra mosca e eu acho que o Augusto tem razão, afirmou Oscar se espreguiçando.
̶ Tu também? Estrela irritada e desanimando, consciente de que aquela conversa maluca não levaria a nada. Porém, eram assim as conversas entre eles.
Fora do bar, nas ruas cada vez mais povoadas de veículos, a vida continuava, Augusto querendo ou não querendo acreditar. Na realidade era um pobre despistado metido a poeta.
Concluo, e disso tenho certeza: Augusto era um jovem sonhador que não aceitava a realidade.
