Assinar o próprio nome. Tomar decisões. Assumir responsabilidades. Foi esse desejo de autonomia que levou a delegada Giovana Muller a ingressar na Polícia Civil. Mais do que estabilidade ou salário, ela buscava protagonismo na própria história.
A trajetória, no entanto, começou bem antes do concurso. Aos 14 anos, viu a realidade da família mudar drasticamente quando a empresa do pai faliu. “Da noite para o dia, perdemos quase tudo”, relembra. Foi nesse momento que passou a trabalhar durante o dia e estudar à noite, determinada a construir um futuro diferente.
Formou-se em Direito com o objetivo de advogar para uma empresa calçadista onde trabalhava. Mas, no mesmo ano da formatura, a empresa também encerrou as atividades. O desemprego durou pouco: dois meses depois, foi chamada para atuar no Fórum, resultado de um concurso realizado anos antes. A partir dali, decidiu seguir estudando até conquistar a aprovação na Polícia Civil. “Teve alguma sorte, mas muito estudo e trabalho árduos”, resume.
O início na nova carreira exigiu coragem. Mudança de cidade, profissão de risco, sem conhecer ninguém e com um filho ainda bebê. Após 15 anos como funcionária pública, deixou a zona de conforto para recomeçar.
Sobre liderança feminina na área policial, Giovana reconhece avanços, mas também desafios. “As mulheres passam por concurso em igualdade de condições, porém o patriarcado e o machismo ainda têm espaço na sociedade e podem minar a liderança feminina.” Ela destaca que atualmente um terço dos delegados são mulheres e que a instituição já contou com uma chefe de Polícia, além de ocupar cargos estratégicos na Segurança Pública.
No atendimento às vítimas, especialmente mulheres, acredita que a presença feminina pode facilitar a empatia e o acolhimento, mas faz uma ressalva. “Isso também é um estereótipo. Podemos ter uma mulher mais firme e um homem mais sensível. O bom atendimento independe de sexo ou gênero, depende da personalidade e do compromisso profissional.”
Fora da função, Giovana se define como intensa, independente e corajosa. “Quase sempre”, acrescenta, entre sorrisos. Amiga leal, “ariana infernal, às vezes um doce”, como ela mesma brinca. Ama o filho “mais que tudo”, valoriza o contato com a natureza e os momentos com a família e amigos.
“Sou uma mulher forte, mas que também sofre muitos revezes, como todo mundo. Todo dia é uma batalha.” O que a sustenta emocionalmente é a consciência dos papéis que desempenha: mãe, profissional, mulher. “Tentar conhecer a mim mesma, evoluir como ser humano e entender que tudo é passageiro. Daqui nada levamos, a não ser o que alimentamos no espírito e na alma.”
No Dia da Mulher, a trajetória de Giovana Muller mostra que liderança é construída com coragem, estudo e escolhas diárias. É sobre assumir responsabilidades, enfrentar desafios e, mesmo nos dias difíceis, seguir firme. Uma mulher que combina força e sensibilidade, aprendizados e intensidade, e que continua escrevendo a própria história todos os dias.
