Em entrevista exclusiva ao Panorama Agropecuário, a presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Antônia Scalzilli, anunciou oficialmente a criação do Fundo Carne, uma iniciativa inédita no Rio Grande do Sul que pretende fortalecer a promoção, valorização e agregação de valor à carne bovina produzida no Estado. O lançamento público do projeto ocorrerá durante a Arena da Pecuária, dentro da programação da Abertura Oficial da Colheita do Arroz, em Capão do Leão.

Antes de detalhar o fundo, Antônia destacou o crescimento e a consolidação da Arena da Pecuária dentro do evento, reforçando a importância da integração entre agricultura e pecuária. Segundo ela, o modelo atual do agronegócio exige conexão entre os setores, especialmente diante dos desafios climáticos e de mercado.
“A integração lavoura-pecuária bem-feita é o sucesso da atividade no campo. A chegada da lavoura aos campos do Sul permitiu antecipar idade de abate, melhorar acabamento de carcaça e dar mais eficiência ao sistema. A pecuária, nesse momento de crise climática, muitas vezes é a salvação da lavoura”, afirmou.
Arena da Pecuária terá três dias de debates técnicos
A Arena da Pecuária ocorrerá nos dias 24, 25 e 26, com um formato dinâmico de rodas de conversa, reunindo produtores, indústria, técnicos e especialistas. O espaço foi ampliado em relação ao ano anterior, após o sucesso da edição passada.
A programação inclui debates sobre:
- Mercado e carne de qualidade
- Rastreabilidade
- Integração lavoura-pecuária
- Pecuária intensiva
- Tecnificação e inovação no campo
Segundo Antônia, o modelo em formato de arena estimula a troca de experiências entre os participantes, tornando o debate mais próximo da realidade do produtor.
“São conversas que têm hora para começar, mas não têm hora para terminar. Enquanto tem carne de qualidade e boa informação, o produtor permanece”, destacou.
Fundo Carne nasce para unir a cadeia
O ponto alto da entrevista foi a apresentação do Fundo Carne, que nasce como uma nova pessoa jurídica, com participação de todos os elos da cadeia produtiva. A proposta é simples: promover institucionalmente a carne gaúcha, agregando valor e construindo identidade de marca para o produto.
O fundo será voluntário e privado. A indústria frigorífica participante contribuirá com R$ 0,50 por cabeça abatida, enquanto os pecuaristas poderão aderir com valores livres por animal comercializado. O projeto já conta com o apoio inicial de 14 frigoríficos e deve envolver também associações de raça, fornecedores de insumos e varejo.
“O fundo nasce para unir os elos da cadeia e pensar como cadeia. Nossa carne tem valor agregado, carrega identidade, tradição e experiência. Não é apenas uma commodity, é algo que representa quem somos”, afirmou.
Inspiração em modelos internacionais
Durante a entrevista, Antônia citou o exemplo do Instituto Nacional de Carnes, do Uruguai, que promove campanhas internacionais de valorização da carne uruguaia, especialmente no mercado chinês. Segundo ela, o Rio Grande do Sul pode seguir modelos já consolidados, apostando em rastreabilidade, transparência e confiança.
“O Uruguai é um case de sucesso. Produz carne de qualidade, com transparência e rastreabilidade. Não precisamos inventar a roda, precisamos aplicar os bons exemplos”, disse.
Gestão profissional e foco em promoção
A nova estrutura terá contabilidade própria, gestão transparente e contratação de profissionais especializados em marketing e promoção institucional. A ideia é desenvolver campanhas estruturadas, criar identidade visual forte e, futuramente, trabalhar com selo e certificação.
“O fundo terá personalidade jurídica própria e será gerido com total profissionalismo. Precisamos martelar nosso produto no mercado e fazer propaganda daquilo que produzimos com excelência”, reforçou.
Construindo pontes no setor
Antônia destacou que o Instituto Desenvolve Pecuária nasceu com a missão de “construir pontes” e provocar mudanças de comportamento na cadeia produtiva gaúcha, diante do cenário em que o Brasil avança em produtividade enquanto o Rio Grande do Sul perde competitividade.
“Se não mudarmos a forma de produzir e de nos posicionar no mercado, não mudaremos os resultados. O Fundo Carne é uma virada de chave.”
A presidente ainda adiantou que novos projetos estão em desenvolvimento, inclusive na área de segurança no campo, pauta que considera fundamental para garantir tranquilidade ao produtor e ambiente favorável à produção.
Com o lançamento oficial previsto para os próximos dias, o Fundo Carne surge como uma das iniciativas mais estratégicas da pecuária gaúcha nos últimos anos, propondo integração, profissionalização e promoção estruturada da carne produzida no extremo sul do país.
