Pela noite, quando o calor amainava um pouco e dava prazer vestir uma roupa mais leve e mais chamativa, o programa era desfilar pela Sarandí, a principal avenida da cidade, ponto de encontro de todas as camadas sociais, de uruguaios e brasileiros, turistas e perdidos no mundo. Viver naquele lugar, uma fronteira sem barreiras, sem limitações, ou visitar aquela cidade e não passear pela Sarandí era quase um sacrilégio.
A “peregrinação” ia desde a Praça Flores até a Linha Divisória, que marcava onde terminava o Uruguai e começava o Brasil. Podia subir por uma calçada e voltar pela outra, ou ficar sempre indo e vindo pela mesma. Em algum momento, sentar num dos inúmeros bares e lanchonetes, com muitas mesas e cadeiras na calçada, beber com os amigos uns refrigerantes ou uma cerveja de litro, comer alguma coisa e apreciar aquela procissão interminável. Raramente, o movimento se estendia até Santana do Livramento. Ninguém atravessa a rua, a não ser que estivesse voltando para sua casa ou que o Cinema Internacional, do lado brasileiro, estivesse apresentando um filme melhor que os que
estavam em cartaz nos cinemas do lado uruguaio.
O movimento do outro lado da rua era durante o dia, sendo principalmente incentivado pelas compras em lojas e supermercados. Do outro lado, dependendo da época, tudo era mais barato.
CARLOS HIGGIE
