A recente notícia da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, um evento que o professor Rafael Schimit, especialista em relações internacionais, descreve como um “sequestro”, lançou a Venezuela em um cenário de imprevisibilidade e intensificou o debate sobre a soberania nacional e o futuro político do país. A ação, que não possui justificativa legal perante o direito internacional para a invasão do território de outro país e a remoção de seu líder, gerou uma complexa teia de reações, que vão do alívio de parte da população venezuelana à profunda preocupação com as implicações geopolíticas.
O relato de um imigrante: alívio com um “asterisco”
Mohamad Thomas Awada, um venezuelano-libanês residente no Rio de Janeiro, compartilhou sua experiência de imigração. Ele deixou a Venezuela em 2018, impulsionado pela severa crise socioeconômica que o país mergulhou entre 2013 e 2019. Awada descreve um cenário de insegurança, com a ligação entre milícias chavistas, coletivos e o crime comum, além da impunidade e da luta diária para conseguir produtos básicos no mercado negro. A frustração com a falta de solução após as ondas de protestos de 2017, que resultaram em mortes e prisões, o levou a emigrar.
Para Thomas e muitos venezuelanos, a captura de Maduro, apesar de controversa, representa um “sentimento de alívio” e o “começo do fim da ditadura”. Ele afirma que Maduro não possui legitimidade e que a ação dos EUA “começa a abrir uma transição, um caminho diferente”. No entanto, ele ressalta um tópico importante: a perda da soberania. “Chávez e Maduro deram (recursos) para outros países, perderam essa soberania para os Estados Unidos agora”, pondera, evidenciando a complexidade dos sentimentos da diáspora venezuelana.
A “doença holandesa”, termo econômico que descreve a dependência excessiva de um único recurso natural, é apontada como um fator crucial. A Venezuela se tornou extremamente dependente do petróleo, mas a expulsão de empresas norte-americanas e a nacionalização do setor, sem a capacidade de manter a produção, agravaram a situação. O professor relata que, apesar de possuir 17% do petróleo comprovado mundialmente, a Venezuela produz e exporta apenas 1%.
Além disso, as sanções econômicas unilaterais impostas pelos Estados Unidos bloqueiam que outros países e empresas comercializem com a Venezuela, inviabilizando a economia e dificultando o acesso à tecnologia e investimentos externos. Esse cenário, somado a um governo autoritário, contribui para a manutenção de um regime que o professor classifica como ditatorial.
Sobre a legitimidade de Maduro, o professor Rafael explica que, desde 2013, após a morte de Chávez, Maduro assumiu o poder. Embora as eleições oficiais apontem vitórias legítimas, há indícios de que os processos eleitorais são influenciados pela forte presença do governo na Justiça, nas Forças Armadas e no Congresso. instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), acompanham esses processos, mas o princípio da não intervenção nos assuntos internos de um país impede ações diretas. O governo venezuelano, ao controlar todas as instituições, não abre espaço para a verificação de desvios.
O dilema da população e as “heranças” da ditadura
A população venezuelana se encontra em um turbilhão de sentimentos. Embora muitos não fossem adeptos de Maduro, a forma como sua saída ocorreu não garante uma solução imediata ou uma sensação de segurança. A captura, em vez de uma eleição democrática, gera um período de incerteza, pois o regime, embora sem seu líder, pode se manter com ainda mais força. A questão que fica é: como será o recomeço para a população venezuelana e o que realmente mudará em suas vidas diante de um cenário tão complexo e imprevisível? A intervenção externa, como a história já demonstrou em outros países como Afeganistão e Iraque, muitas vezes resulta em condições ainda piores para a população. A Venezuela, com sua riqueza natural e seu povo resiliente, enfrenta agora um futuro onde a esperança de mudança se mistura com a sombra da incerteza e a complexidade das relações internacionais.
