sex, 12 de julho de 2024

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Última Edição

REVOLUÇÕES, DESCOBRIMENTOS, TIRADENTES, IMPOSTOS…

Estátua de Tiradentes, em frente da Assembleia legislativa do RJ e Livros, suas excelências

Buenas!

Estamos na semana em que é comemorado o feriado de Tiradentes, dia 21 de abril. Tiradentes é considerado herói nacional, um mártir da república, muito antes da república existir em terras tupiniquins. Agora lhes questiono, leitores atentos, por que não é feriado no dia do descobrimento do Brasil?

Como sempre, vou tentar responder com argumentos. O subsequente dia 22, na minha pouco modesta opinião, é uma data bem mais relevante para a nação, pois marca o início de tudo que está aí, para o bem e para o mal, em nossa nação. Já o feriado de Tiradentes, criado por decreto em 1965, é óbvio que vocês lembram quem mandava no Brasil, não é? A ditadura militar, aquela famosa por outras criações, como os AIs. Qual a função dessa data comemorativa? Alçar nosso alferes ao papel de mártir, um herói cívico, como está escrito na lei. Justifica, por um lado, pois tivemos tão poucos heróis em nossa história, que vale a lembrança.

Contudo, devemos compreender essa valorização, indo além do ensinado na escola, enxergando o que há por trás dos mitos. Com isso, confesso, irei desmistificar um tanto nosso herói, mas já adianto, fiquemos com o símbolo, não com a pessoa.

Antes dele, uma curiosidade: a Inconfidência Mineira ocorreu em março de 1789 e foi influenciada pela… Independência dos EUA, que foi declarada em 1776. A república norte-americana surgiu motivada pelo Iluminismo francês que, juntos, influenciaram a Revolução Francesa e a queda da Bastilha, em julho de 1789. Ou seja, o mundo já era conectado no passado, não na velocidade atual, mas as peças do dominó histórico não caem por um acaso divino.

Voltemos ao homem, a Joaquim José da Silva Xavier, um homem do século XVIII, fato que limita o escopo do debate, devido a sua origem de homem simples, sem estudos, que serviu por um tempo o Exército. À época, não existia uma carreira como hoje, em que o militar se aposenta após 30 anos de labuta. A pessoa recebia um soldo quando engajada e ficava sem salário quando em tempos de paz, uma espécie de tenente da reserva. Para sobreviver, trabalhou como dentista, que também não tinha glamour. Eles usavam um banco, alicate, martelo e formão, exercendo o ofício em uma calçada qualquer, local propício para receber sua clientela com dores, sanadas não com assepsia e anestesia, mas com extrações objetivas e simples, no máximo um gole de cachaça, para cativar o cliente, afinal, estamos em Minas Gerais.

Éramos colônia de Portugal, país dos mais poderosos, mantido em boa parte com o ouro extraído pelo trabalho escravo na região de Ouro Preto. Revoluções precisam de duas coisas: gente com dinheiro que tire proveito delas e bodes expiatórios que fiquem com a culpa em caso de fracasso. A nossa inconfidência teve as duas, no caso.

Quando do julgamento, no Rio de Janeiro, em 1792, diante do júri que afirmava ser o alferes o líder da revolta, o jurista e escritor Tomás Antônio Gonzaga, autor dos poemas arcádicos de “Marília de Dirceu” e as ácidas “Cartas Chilenas”, disse: acham que eu, na minha posição, iria seguir um louco, que fica a gritar pelas ruas? Ou seja, Tiradentes não era promotor, era somente um entusiasta público de uma revolta que deveria ser silenciosa.

Como castigo supremo, Gonzaga foi condenado ao degredo em Moçambique, onde viveu muito bem devido a sua origem e conhecimentos. Bem diferente do castigo de nosso alferes, que foi enforcado, esquartejado, teve os membros empalados na entrada da cidade, teve sua casa demolida e a terra forrada com sal, para que nem a grama crescesse no local. Seus parentes próximos perderam os bens, tudo com exemplo para possíveis revoltosos do futuro…

Coisa pouca, não é verdade? Aliás, amigo leitor, saiba que todas as revoluções citadas nessa singela crônica tiveram uma origem similar: Impostos abusivos! Nos EUA eram as taxações sobre o chá promovidas pela matriz britânica. Na França era a pobreza dominante e burgueses que sustentavam a realeza com seus brioches e luxos.

No Brasil, foi a sobretaxa do ouro, chamada “Derrama”, que gerou a revolta. A colônia brasileira tinha de enviar 20% do ouro arrecadado direto para a coroa portuguesa. No entanto, com o tempo estabeleceu uma margem: esses 20% seriam sobre a cota fixa de 100 arrobas. Ou seja, arrecadando ou não os 1500 quilos equivalentes de ouro, eram obrigados a mandar 300 quilos anuais para a terrinha.

Isso indignou os mandatários locais, que tentaram se articular para buscar certa independência dos portugueses da matriz, porém, denunciados logo no período preparatório, nada aconteceu, além de prisões, extradições e uma morte exemplar.

Impostos absurdos podem gerar revoltas e heróis, alguns vitoriosos, outros viram feriados. Quem sabe, motivados pelos exemplos históricos, podemos promover protestos contra a atual “derrama” que quer sobretaxar os livros? No Brasil, adquirir conhecimento nunca foi fácil, mas ouvir que só quem lê é rico, é um acinte contra a pátria que mereceria, no mínimo, o degredo.

Aliás, até concordo, em parte: só rico de cultura, conhecimento e bom senso lê. O resto, repete o que é dito em memes de redes sociais, como recomenda o pai a Janjão, no conto “Teoria do medalhão”, de Machado de Assis. Aliás, nessa semana rica em assuntos históricos, lembro que tivemos o dia mundial do livro, em 23 de abril. Por isso, encerro afirmando: Livro é tão essencial quanto vacina, deveria, inclusive, ser distribuído gratuitamente pelas ruas.

– Tome sua vacina e pegue um livro de brinde, Tenha um bom dia e ótimo futuro, caro leitor!