sex, 12 de julho de 2024

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Variedades Digital | 06 e 07.07.24
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Última Edição

LESA-HUMANIDADE CULTURAL

Buenas!

           

            Vocês sabem, caros leitores, que um bom cronista se alimenta de efemérides. Contudo, fatos relevantes não aparecem todos os dias, exigem um garimpo semanal. Em geral, o noticiário ajuda a garantir o ganha-pão de um escritor sazonal, porém, dessa vez, deixarei as novidades aos noticiosos. Quero falar de um crime lesa-humanidade: o incêndio da Notre Dame de Paris, que está completando dois anos dia 15 de abril.

Sabem que não sou um homem religioso, mas os grandes templos construídos com o suor, o sonho e a dedicação de milhares de almas, me cativam. Sempre que viajo, busco cidades que possuem catedrais góticas ou igrejas antigas. São raras e esplendorosas, em sua maioria. Entretanto, dá para acreditar que, em pleno século XXI, alguém ainda fume e, pior, que um cidadão (que espero arda no oitavo círculo do inferno de Dante para todo o sempre) deixou cair um toco de cigarro sobre o telhado de Notre-Dame?

Essa catedral sobreviveu a reformas ao longo de seus 850 anos, as guerras dos 30 e dos 100 anos, a duas guerras mundiais, as derrotas para a Prússia e para a Alemanha, resistiu até a tentativas de vendas para empresas de demolições, porém, sucumbiu a um estúpido toco de cigarro jogado de forma relapsa por um peão de uma obra…

Aliás, sabiam que ela foi vendida e seria demolida, não fosse “salva” pelo mítico “corcunda de Notre-Dame”? Como nem todos lembram, vou contar-lhes. Quasímodo é um personagem ficcional de um romance publicado em 1831 por ninguém menos que Victor Hugo, um dos maiores romancistas de todos os tempos. O livro foi lançado com o nome “Notre-Dame de Paris” e isso não foi mero acaso. Vou contar o motivo, atenham-se!

A revolução francesa, ocorrida em 1789, estatizou todas as igrejas, transformando-as em templos seculares ou prédios governamentais, permitindo cerimônias religiosas, inclusive cobrando impostos, diferente do que acontece aqui no Brasil… Inclusive, Napoleão Bonaparte, que dominou a França após o findar dos tempos revoltosos, autocoroou-se nesse templo com pompa e circunstância. Após a derrota dele em Waterloo, esse imenso prédio já estava em tal grau de decadência que nos idos da década de 1820 e lá vai pedrada, ele foi vendido para uma empresa de demolição.

Vou repetir: um dos prédios mais lindos do mundo seria demolido e suas pedras vendidas como sucata, para citar um exemplo contemporâneo. E posso afirmar sem medo de errar, ele foi salvo pela literatura! A campanha na imprensa após a repercussão do livro de Victor Hugo criou tal celeuma que a sociedade francesa, que enamorou-se por Quasímodo e Esmeralda, abraçou a causa e passou a lutar pela sua permanência, conseguindo o cancelamento da venda e uma restauração digna; uma vitória ímpar da cultura sobre o obscurantismo administrativo.

Não sei se vocês lá estiveram, mas falarei com os que nunca foram. Na primeira viagem que fiz para a Europa, cheguei à noite em Paris. Ao raiar do sol, mochila às costas, fui à catedral Notre-Dame de Paris. Aqueles pórticos forrados de estátuas esculpidas há mais de 8 séculos, os vitrais que ficavam mais ainda magníficos quando iluminados pelo sol, os contrafortes e seus arcobotantes externos que lhe dão sustentação e a elevam aos céus, tudo era esplendoroso. Mas a técnica de ogivas cruzadas que foi desenvolvida no auge da Idade Média e permitiu o teto atingir alturas nunca antes imaginadas, era minha sedução. Em seu interior, não conseguia baixar o olhar do teto.

Em 2019 voltei pela enésima vez (lembram que tenho arroubos pretensiosos, às vezes, não sempre, por isso, relevem o exagero da expressão) à cidade, dessa vez, levando meus filhos. Devido aos ataques terroristas, para entrar precisávamos enfrentar longas filas para adentrar aquele templo. Achei que já estavam maduros e poderiam valorizar tal viagem. Tentei explicar a grandiosidade do local, sua história, porém, a maldita aborrecência falou mais forte e reclamaram do frio e (perdoem, eles não sabem o que falam) da catedral não ter wi-fi!

Apesar de os dias serem poucos e termos muitos lugares para visitar, fiz questão de voltar no último dia para me despedir daquele local que adentrei muitas vezes ao longo de minhas visitas à cidade que nasci para amar (sei que a maioria compreende meus sentimentos…). Enfrentei os resmungos da dupla, mas ignorei, do jeito que um pai finge que faz, afinal, precisamos sobreviver à paternidade. Namorei aquele lugar um pouco mais, suspirei admirando o telhado que me seduziu desde o primeiro dia em que pus os pés na chamada cidade luz sem o saber que ele seria destruído alguns meses depois por um toco de cigarro…

Ao final de 2019 voltei a Paris, com a namorada, que, diferente dos filhos, soube apreciar a igreja e suas torres góticas, deslumbrando-se com as gárgulas e as estátuas que podiam ser apreciadas de longe. Infelizmente, estava cercada por tapumes e tinha somente a fachada iluminada. O telhado aguarda o findar da demorada e delicada restauração que será necessária para devolver à humanidade um dos maiores legados criados pelo homem.

Confesso, chorei novamente, derramei quase a mesma quantidade de lágrimas que há dois anos, enquanto via na tevê a agulha sendo consumida e caindo sobre aqueles corredores medievais. Mas lhes garanto, irei caminhar de novo naquela nave, por entre as cadeiras, apreciando os detalhes do teto novo, comparando com o telhado que sobreviveu. Afinal, não há o que o homem consiga destruir, que esse mesmo homem, com sua arte, empenho e dedicação, não consiga reconstruir.