| Ruralistas
na luta pela telefonia
A peleja é recente: mas já passa de dois
meses. Enquanto o meio rural situado nos limites entre
Sant’ Ana do Livramento, Rosário, Quaraí
e Alegrete aguarda o pronunciamento da Vivo, continua
a batalha pelo restabelecimento das comunicações
no chamado Triângulo das Bermudas. Uma área
que abrange entre 20 e 25 mil pessoas na zona rural
dos quatro municípios, onde não há
como falar ao telefone. Sem internet, telefonia fixa
ou celular, os produtores, moradores e empregados em
estabelecimentos rurais precisam percorrer quilômetros
até achar uma ponta de coxilha alta o suficiente
para registrar pelo menos um ponto de captação
no aparelho celular. Isso quando o tempo está
muito bom, pois quando chove não vale a pena
tentar.
Um problema que vai além do agronegócio
Caty, Pedregal, Rincão Bonito, Galpões,
Paipasso, Cerro Chato, Cerros Verdes, Sarandy, toda
a região que vai até Alegrete pelo Passo
da Guarda , mais o lado de Rosário do Sul, e
a região que vai até Quaraí. São
estas algumas das localidades de telefones mudos no
interior dos municípios. O casal de produtores
rurais Elizabeth Linhares Torelly e Jorge Torelly, vivenciam
a realidade de incomunicabilidade, como também
ocorre com muitos outros ruralistas. Elizabeth, que
integra a Comissão de Mulheres Produtoras Rurais
do Sindicato Rural de Livramento, responde alguns questionamentos
sobre o problema.
BANCO DE IMAGENS/AP
Os produtores rurais Jorge Torelly e Elizabeth Linhares
Torelly: preocupação social
Rural - Há quanto tempo esse Triângulo
está prejudicando os negócios e as relações
em geral?
Elizabeth - Já faz um bom tempo, desde que trocaram
o sistema; temos tido dificuldade para tudo, como negociar
entrar em contato com a cidade, por algum motivo até
mesmo de emergência.
Rural - A ausência de comunicação
pode gerar prejuízos financeiros, de saúde
e, entre outros, sociais nas propriedades. Cite exemplos:
Elizabeth - Os problemas que vejo são muito mais
sociais que financeiros. É claro que os negócios
também estão prejudicados, pois muitas
vezes assuntos que poderiam ser resolvidos por telefone,
fazem com que tenhamos que ir à cidade para resolver
e isso é custo. Para mim, o problema maior é
o social. Todos os funcionarios dos estabelecimentos
rurais têm familiares na cidade, muitas vezes,
filhos que ficam tomando conta da casa enquanto a mãe
sai para trabalhar. Neste caso, posso dar o exemplo
de uma funcionária nossa, que para saber notícia
tem que caminhar entre 3 a 4 km para falar com sua casa.
Muitas vezes este caminho é feito debaixo da
chuva pois eles têm preocupações
e responsabilidades na cidade. Outro exemplo: escolas
polo, os ônibus que buscam as criancas nas estâncias,
muitas vezes, estragam e ou o motorista tem que ir atrás
de socorro, deixando as criancas sozinhas, ou então,
tem que esperar que alguém passe para poder ajudar.
Um problema que encontro para o futuro é a contratação
de pessoal. Quem é que gosta de ficar muito tempo
sem saber noticias de seus familiares?
Hoje quando se contrata pessoal para a estância,
uma das perguntas é se tem sinal de telefone;
será que amanhã isto não prejudicará
no contrato destas pessoas?
Será que não vão preferir buscar
um emprego mais perto ou até mesmo na cidade?
Rural - Alguma operadora de telefonia, ciente do problema,
manifestou interesse em oferecer solução?
Elizabeth - Entrei em contato com um representante da
Vivo. Este me pediu as coordenadas para mandar uma equipe
técnica para avaliar a situação,
mas até agora não tive resposta.
Rural - Em não havendo telefonia, convencional
ou celular, também são prejudicados os
serviços básicos (educação,
segurança, etc...) Já existem problemas
nesses segmentos?
Elizabeth - Com certeza! Veja o problema do abigeato.
Como podemos entrar em contato com a polícia
se não temos como nos comunicar?
Na educação tive um exemplo clássico:
um filho de uma funcionária que estuda no Ibirapuitã
adoeceu e nós não tínhamos (além
do rádio via escritório) como nos comunicar
com o motorista ou a diretora para avisar que não
precisava ir a condução buscá-lo.
Isso é um gasto que não precisava (quanto
não se gastou em diesel para ir até lá
e voltar?)
Rural - Fica à vontade em comentar alguns outros
pontos que julgues interessantes.
Elizabeth - Eu acho que este problema não e só
dos produtores, mas sim, um problema de toda a comunidade,
pois ela, sim, que aproveitará mais estes beneficios
pois poderá trabalhar naquilo que é a
vocação do município: o agronegócio.
O próprio comércio poderá aproveitar,
pois qual produtor ou funcionário não
usaria o telefone para saber alguma informação
sobre algum produto?
Isolamento indesejado

Luiz Cláudio Andrade - Produtor rural
Tenho três celulares da operadora Vivo, que não
funcionam mais na zona rural, além de 16 celulares
de funcionários de nossa empresa, os quais funcionavam
antes, pegando perfeitamente o sinal da operadora e
agora não funcionam mais. Nossa propriedade é
a Fazenda São Leandro, localizada a 70 quilômetros
de Livramento, 64 quilômetros de Rosário
do Sul e 90 quilômetros de Alegrete, na região
denominada de São Leandro. De uma hora para outra,
simplesmente ficamos sem comunicação,
sem sequer sermos comunicados de nada. Algum dos funcionários
ainda foram chamados na cidade para trocarem os aparelhos
antigos, sistema CDMA ou TDMA pelo atual, GSM, só
que quem trocou ficou, igualmente, sem comunicação.
Os aparelhos antigos pegavam sinal tanto com antena
externa como sem antena externa, mas os atuais, sistema
GSM, não pegam sinal de forma alguma, com ou
sem antena externa. O pior é que o sistema de
radioamador que era usado na propriedade desde 50 anos
atrás, hoje não existe mais.
Estamos numa grande emergência e sem ter a quem
recorrer mais, uma vez que as tentativas que todos têm
feito com a operadora têm sido em vão.
A indignaçao é geral, do pessoal da propriedade
e de todos os vizinhos e conhecidos que nos procuram
para se tentar achar uma solução.
Prejuízo na área comercial

Leonardo Osorio Jiménez - Representante Comercial
Tenho celulares da Operadora Vivo, pois a mesma era
a que tinha melhor sinal no interior do município.
Após a troca de sistema, os aparelhos telefônicos
simplesmente ficaram sem sinal na maioria das localidades,
principalmente na região compreendida entre os
municípios de Sant’ Ana do Livramento,
Quarai, Rosário do Sul e Alegrete. Como representante
comercial, trabalhando continuamente com serviços
prestados em todo o interior do município de
Livramento fico extremamente prejudicado por não
ter comunicação por grandes períodos
de tempo com os clientes e com a empresa que represento.
Sou testemunha das dificuldades que essa situação
está trazendo a todos clientes e colaboradores
com quem faço contato.
Fones mudos nas coxilhas
Tenho celulares da operadora Vivo, que funcionavam
antes da troca de sistema e, atualmente, não
funcionam. As propriedades localizam-se na Coxilha Negra,
distante 65 km de Sant’ Ana do Livramento e na
Coxilha São Rafael, distante 100 km de Livramento.
Trabalhamos com 6 (seis) funcionários fixos e
estamos sendo prejudicados em função de
ficarmos sem comunicação com a cidade
para assuntos que vão desde os funcionários
ficarem sem contato com seus familiares, passando por
dificuldades na administração da propriedade
até situações de segurança,
contato com fornecedores, clientes e prestadores de
serviço como técnicos, aramadores, esquiladores,
caminhoneiros... Há que se acrescentar que com
o sistema anterior fizemos investimentos em aparelhos,
torres e antenas e com a troca do sistema por parte
da operadora, sem a devida explicação,
perdemos todos esses equipamentos, uma vez que os mesmos
tornaram-se obsoletos e os que nos foram oferecidos
para troca ou compra não suprem nossa necessidade
de comunicação. Portanto, fomos ludibriados
duas vezes: investindo em uma tecnologia que deixou
de funcionar e após trocando por outra que também
não funciona!
Ader Jiménez - Produtor Rural - Fazenda Santo
Antônio
Localidade: Coxilha Negra - Município: Sant’Ana
do Livramento
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