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    Brasileiro é babaca e otário! Será?

    Há poucos dias foi publicadanesta coluna uma antiga crônica atribuída a Arnaldo Jabor, da qual, o próprio, já declarou não ser o autor verdadeiro. O texto tem o seguinte título: "Brasileiro é um povo solidário- Mentira! Brasileiro é babaca." Ainda bem que não foi ele! é tão carregado de preconceitos e generalizações simplistas que espanta pensar em Arnaldo Jabor como autor. Para se ter uma ideia, ao desabafar sobre este texto, ele diz que o mesmo só pode ter sido escrito por um neonazista. Como se não bastasse, alguns dias depois, um novo texto apoiou a falsa crônicae acrescentou mais alguns detalhes da dita "babaquice" do brasileiro, bem como mais alguns predicados, como "otário", "imbecil" e, também, "burro",no trecho em que coloca: "ninguém gosta que lhe puxem as orelhas, principalmente quando estas são nuas, cruas e muito compridas, porque a VERDADE e as orelhas doem".Diante disso, é interessante mencionar uma colocação feita pelo historiador e deputado federal Chico Alencar que, no mínimo, colocam em debate estas "verdades". Conforme o referido autor"...tudo isso reforça a cultura estereotipada, isto é, cheia de carimbos, clichês. Superficial e falsa. Mas muito difundida, segundo a qual o bom é o que está lá fora, no primeiro mundo".Realmente, se esculacha o Brasil e os brasileiros e se fala dos ditos "desenvolvidos" como modelo a seguir. Se paga pau como se esses países fossem o paraíso. Não é mencionado que em países da Europa há lugares onde ainda é proibida a entrada a negros, por exemplo, e que a xenofobia é um problema grave e leva a atrocidades bárbaras, justo no dito berço da civilização. Enquanto isso, no Brasil dos "burros", preto, branco, amarelo, roxo, cantam juntos em uma alegre roda de samba.Nos EUA, para muitos o modelo a seguir, metade dos impostos vão para as forças armadas, que intervém de forma autoritária na soberania de outros países enquanto lá dentro cresce a cada dia o número de pobres, miseráveis e indigentes. Isso sem falar das eleições historicamente fraudulentas, das quais ainda não se livraram.Além disso, nos EUA, só agora ganha força o debate por um sistema de saúde público. No Brasil existe o SUS com seus problemas, mas existe!atende milhões de pessoas.Analisando com um pouco mais de cuidado ao invés de sair berrando aos quatro ventos o fracasso da nossa gente, é fácil notar que todos os países têm seus pontos positivos e negativos. Chico Alencar disse: "não somos melhores e nem piores que ninguém. Temos uma história, temos problemas, temos valores e vícios, possibilidades e obstáculos. Somos um povo em marcha - ziguezagueando as vezes - e uma nação em construção". Estas frases levam a pensar o quanto é reducionista estabelecer uma cara para o Brasil ou para o brasileiro.Existem brasileiros de todo tipo. O Brasil é plural, tem muitas caras. Certa vez disse um presidente da França: "o Brasil não é um país sério". Esta colocação é tão generalizadora quanto dizer que todos os franceses não gostam de tomar banho. Ou ainda, dizer que nordestino é preguiçoso. Jorge Amado, escrevendoo que escreveu era um baiano, portanto um nordestino preguiçoso? Imaginem se não fosse! Portanto, se alguém acha que brasileiro é babaca, ou outras generalizações simplistas desta espécie, tudo bem, mas saiba que esta não é a verdade e sim apenas um ponto de vista, uma opinião, que pode ser questionada. Por exemplo,pode-se refutara afirmação de que o brasileiro é babaca por eleger um presidente sem escolaridade, pois os "babacas" elegeram o "analfabeto" e este trouxe o saber letrado de nível superior gratuito à Livramento. Coisa que os presidentes letrados não fizeram. O texto atribuído a Arnaldo Jabor dizia ainda: "o brasileiro não cobra do governo uma solução para a pobreza". Opinião também contestável, pois pode-se dizer que o autor não lembrouda existência no Brasil de alguns dos maiores movimentos sociais da América Latina e do Mundo. Bravos guerreiros da insubmissão às injustiças, que deixaram de viver "enrodillados", como disse Guevara, e foram a luta, mas que não raramente são chamados de baderneiros e vagabundos pelos mesmos "sábios" críticos da imobilidade eda tal babaquice brasileira. Disse o texto também: "brasileiro é vagabundo por natureza". Será? Um outro ponto de vista poderia contestar dizendo que tal afirmação não levou em conta o fato de a jornada média de trabalho do brasileiro ser de 12 horas se for incluído o ir e vir (em precários transportes coletivos) e que para a maior parte da população o dia começa antes do amanhecer.Estes exemplos são só para mostrar o quanto são contestáveis estas "verdades" colocadas sobre o brasileiro. Passou o 7 de setembro, desfilamos, comemoramos a independência que continua a ocorrer a cada dia, celebramos a luta de todos na construção diária de dias melhores. Por isso, viva a pátria! Não no sentido de um patriotismo incondicional e inocente, de submissão. Não o patriotismo do "Brasil: ame-o ou deixe-o", mas sim o viva a pátria em construção, do olhar crítico e ao mesmo tempo otimista, atento, de brasileiros que não são melhores ou piores que ninguém, são apenas brasileiros. Temos muitos problemas, mas não é chamando nós mesmos de burros, rotulando-nos, gerando baixa autoestimaque vamos resolver. E, convenhamos, se olharmos para trás, facilmente veremos que apesar dos problemas, estamos cada vez melhores!
    Felipe Leindecker
    Monteblanco
    Professor
    RG: 8082864541;
    CPF: 01198441097