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    No início da segunda metade dos anos sessenta quando troquei minha querida vila Júlio de Castilhos pelo bairro Floresta, na capital,onde fui acolhido na casa de uma tia,contristada com a minha pobreza,eu era caminhante inveterado. Menos pelo prazer de caminhar e mais porque era preciso poupar até mesmo o dinheiro das passagens dos ônibus. Táxi nem pensar,embora fosse uma ideia aceitável numa emergência. Seria uma demasia para minha modesta mesada .Mesmo quando já havia bebido alem da conta,altas horas da madrugada,eu encarava as ruas com alegre naturalidade,imaginando a perspectiva da cama e de um cobertor. Pois,em nenhuma daquelas travessias boêmias,senti medo de confrontar,numa esquina, a face do crime.
    Era remota a possibilidade de que um assaltante quisesse avançar nos meus bolsos a procura do dinheirinho contado. Jamais vi um assalto na noite da capital. Certamente existiam assaltantes,mas não os vi nunca,talvez porque sempre fui constantemente vigiado por um anjo da guarda zeloso . Lembro de uma noite precisei vencer umas quinze quadras para chegar a pensão em que eu morava. Sem muita vontade para ir adiante,porque as pernas reclamavam,sentei num banco de praça e quando me apercebi o sol já aparecera . Ninguém interrompeu meu sono com intenções malévolas. Nenhum bandido quis azarar a minha vida jovem e mal administrada.
    Hoje,quando penso naquelas noites intermináveis,me considero um sobrevivente do asfalto e ao mesmo tempo um homem feliz. Os dias irresponsáveis da minha juventude,quando vivia sozinho na capital,fazendo um curso superior,não conheceram a violência maldita que nos assola. E até imagino a hipótese de que alguém me desafiasse para fazer a travessia de Porto Alegre a pé,alta madrugada,em troca de um bom dinheiro. Não aceitaria o desafio em nenhum hipótese por saber que dificilmente chegaria inteiro ao final do trajeto. A verdade é que as grandes cidades brasileiras já não oferecem condições de segurança para quem deseja viver sem sobressaltos. As pessoas são prisioneiras dentro de suas casas,cercadas por grades de ferro,mas nem assim bem protegidas. A bandidagem pinta e borda porque não recebe o enfrentamento adequado para renunciar às suas práticas criminosas. E não existe de parte dos lideres políticos, ao menos com clareza perceptível,o desejo de discutir o tema na campanha eleitoral inciada oficialmente há poucos dias. Somente os meios de comunicação fazem a sua parte,alertando para a insegurança que nos envolve e chamando a atenção para a ocorrência de crimes bárbaros,que nem os animais teriam coragem de cometer. Estamos submetidos a um massacre,sem poder preservar nossa tranquilidade,nosso direito de viver em paz. Aí eu tenho mesmo que relembrar os dias passados,quando o dinheiro era escasso,mas tinha liberdade para andar nas ruas sem o temor de me transformar em mais um número na estatística da criminalidade.