Há alguns
anos, mais precisamente em 2001, a Zero
Hora Editora Jornalística S.A, publicou
um livro de permanente interesse, intitulado
"Gauchão - A História
ilustrada de uma Tradição".
O livro, com título propositalmente
rimado, rememora, com texto enxuto e fotos
de época, a trajetória do
campeonato gaúcho desde que foi disputado
pela primeira vez em 1919, até o
ano 2000. Na realidade, o primeiro Gauchão
estava marcado para o ano anterior, 1918,
mas não foi possível a sua
realização devido a um surto
arrasador de gripe espanhola, que provocou
quatro mil mortes no Rio Grande do Sul.
O nascimento do Gauchão resultou
da criação da Federação
Rio Grandense de Desportos e o seu primeiro
campeão foi o Brasil, de Pelotas,
que, na disputa de um único jogo
contra o Grêmio, no estádio
da Baixada, em Porto Alegre, venceu por
5 a 1. O atacante Proença foi o grande
carrasco do Grêmio, marcando três
gols. Mas o craque do time do Brasil era
o Ismael Alvariza, que no ano seguinte vestiu
a camisa da seleção brasileira,
para disputar o Campeonato Sul - Americano,
no Chile.
Página por página, acompanho
a trajetória do Gauchão, na
história ilustrada que tenho em mãos,
até chegar onde queria o ano de 1937,
quando o nosso Grêmio Santanense conquistou
o título estadual. A foto do time
campeão, que ocupa um espaço
pequeno sobre a resenha do jogo do título,
contra o Riograndense, de Rio Grande, no
estádio do Guarany, em Bagé,
exibe nitidamente o rosto de todos os jogadores,
titulares e reservas. Não sei se
foi tirada no dia da decisão, em
Bagé (Seis de Fevereiro de 1938),
mas isso não importa.
No momento, o que mais quero é identificar
o Alfeu Cachapuz Batista, uma das celebridades
do Rolo Compressor, o time-show do Internacional
dos anos 40, que em 1937 se transferiu para
Sant'Ana do Livramento, contratado temporariamente
pelo Grêmio Santanense. Na época,
ele já era jogador do Internacional,
emprestado pelo Guarany de Bagé,
e não tinha o destaque que alcançou
esbanjando sua imensa categoria na zaga
colorada. Mas as suas qualidades eram tão
visíveis, que chamaram a atenção
do general José Antônio Flores
da Cunha, o todo-poderoso interventor federal
no Estado por escolha de Getúlio
Vargas. Ele avaliou, com o bom faro do torcedor
interessado no sucesso do time da sua cidade,
que Alfeu seria um jogador indispensável
para o Grêmio conquistar o título
estadual, numa época em que o Grêmio
Portoalegrense e o Internacional estavam
ausentes da competição. O
presidente do Internacional, Iraci Salgado
Filho, não seria louco para contrariar
a vontade do general. E, de repente, sem
saber exatamente o que encontraria em Livramento,
Alfeu Cachapuz Batista, nascido em Lavras
do Sul e educado em Bagé, embarcou
num avião que o levou até
o aeroporto dos Galpões. A legenda
da foto, com registro do embarque, no qual
Alfeu aparece de paletó, gravata
e com um casaco de lã no braço,
informa que "inesperadamente, Alfeu
seguiu de avião para Livramento".
Alfeu vestiu a camisa do Santanense, foi
campeão estadual, adorou o ambiente
do cassino A Caverna, conquistou novos amigos,
como o técnico Uruguaio Ricardo Diaz,
e voltou a Porto Alegre com o dever cumprido.
Passou rapidamente pelo Santos e voltou
ao Internacional, onde encerrou sua brilhante
carreira no final dos anos 40. Ao gestionar
para que Alfeu jogasse na vila Honório
Nunes, Flores da Cunha fez a sua melhor
jogada, fora da política e dos jogos
de azar, que também o seduziam. Ajudou
o Grêmio Santanense de forma decisiva.
Talvez esta bela história inspire
outros Santanenses a fazerem a mesma coisa.
ro2803@terra.com.br
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