Em
memória
de Jango
Há uma semana, dia
primeiro de março de 2010, transcorreu
uma data histórica inscrita no panteão
do trabalhismo, embora nem todos os militantes
do PDT e do PTB tenham lembrado dela. Pois,
informo, no cumprimento de um dever prazeroso
que naquele dia, no ano de 1919, nasceu
o presidente João Belchior Marques
Goulart, o Jango, na fazenda do seu pai,
Vicente Rodrigues Goulart, em São
Borja. O dia assinalou, portanto, os 91
anos do nascimento de Jango, que está
sepultado no cemitério de sua cidade
natal, para onde foi levado após
a sua morte no exílio, em dezembro
de 1976. Convidado a fazer uma palestra
a respeito da vida de Jango, sobretudo voltada
para o período em que ascendeu ao
primeiro plano da vida partidária
nacional, nas décadas de 1950 e 1960,
sob o impulso do seu amigo Getúlio
Vargas, declinei do convite por força
de compromissos assumidos em Porto Alegre.
Mas hoje quero levar, através deste
espaço, o abraço fraterno
e a solidariedade aos trabalhistas de São
Borja, que tem sido, nos últimos
tempos, tão zelosos com a memória
de Jango. O memorial do presidente, organizado
na casa em que ele se criou no centro da
cidade, é um trabalho de inegável
mérito no conjunto de obras objetivando
ao culto da nossa história. A administração
da cidade e os vereadores não tem
poupado esforços para valorizar suas
raízes trabalhistas, com destaque
para as grandes lideranças de Vargas
e de Jango. Torço para que em Livramento
haja maior interesse pelo conhecimento da
biografia do único presidente brasileiro
que morreu no exílio, perseguido
por seus inimigos políticos e esquecido,
de propósito, por líderes
da oposição à ditadura
ansiosos para ocupar o espaço que
ele e Leonel Brizola deixaram após
o golpe militar de 1964. Afinal de contas,
uma das principais avenidas de nossa cidade
se chama João Goulart.
A trajetória política de João
Goulart, o seu papel de líder trabalhista
e as votações consagradoras
que recebeu nas duas vezes em que foi candidato
a vice-presidente da República, formaram
um capitulo fascinante da história
do Brasil contemporâneo. Já
nem falo a respeito do governo de Jango,
do golpe militar e de seu exílio,
fatos mais conhecidos. Também precisamos
conhecer a vida de Jango, antes de se tornar
Ministro do Trabalho do governo democrático
de Getúlio Vargas, em 1953, quando
assumiu um lugar de destaque na liderança
do Partido Trabalhista Brasileiro, porque
ela nos reserva grandes surpresas: a sua
meninice no campo, o tempo dos primeiros
estudos, os seus contatos com a bola de
futebol, o curso de Direito em Porto Alegre,
a doença venérea que afetou
irremediavelmente seu joelho, as suas participações
no Carnaval de São Borja e as iniciativas
que o transformaram num homem rico antes
dos 30 anos. Nessa época, se formou
o caráter e a personalidade de Jango,
o homem simples, o amigo dos pobres, o ser
desprendido e solidário, incapaz
de dizer não quando lhe pediam uma
ajuda.
Com a autoridade que ouviu demorados depoimentos
a respeito do temperamento de Jango, de
quem leu tudo o que se escreveu a respeito
do presidente, digo sem nenhum receio de
estar enganado: Jango foi uma extraordinária
figura humana, dessas que poucas vezes conseguem
sucesso na vida político-partidária,
sempre afetada pelo salve-se quem puder.
As suas virtudes estiveram muito acima dos
seus defeitos, inclusive no tempo de presidência
quando tentou, de todas as maneiras, liderar
um processo de reforma indispensável
para o desenvolvimento pleno do Brasil.
As lideranças trabalhistas atuais
tem a obrigação de tornar
o cidadão e o político João
Goulart mais conhecido nas novas gerações.
Jango foi bom, Jango foi gente. Jamais permitiu
que a sua fortuna o afastasse do povo sofredor.
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