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    A crise e o estado de ânimo dos portugueses

    Lisboa, 02-agosto - Sim, é visível, não há como negá-la. A crise econômica em Portugal nós a vemos por todos os lados e em todos os lugares. Está na expressão dos rostos lusitanos, nas conversas de mesa do bar e do restaurante, nas manchetes dos jornais e, em especial, no bolso dos trabalhadores portugueses. E isso, claro, é sempre o que mais pesa.
    Muitos deles tiveram seus salários reduzidos - alguns com redução da carga horária de trabalho - e ontem entrou em vigor um aumento enorme nas tarifas dos transportes coletivos, superior, em certos casos, a 20%. Também já está aprovado um corte expressivo no 13º salário do final do ano, numa escala variável, conforme o tamanho dos rendimentos acima do valor do salário mínimo.
    Como me disse meu amigo Artur Augusto Monteiro Inácio, um português de Viseu que há anos é responsável pela banca de jornais e a loja de souvenir do hotel Villa Rica, os trabalhadores vão sentir ainda mais a crise depois do corte do subsídio natalino e as despesas de final de ano.
    Ninguém está confortável, com certeza. A começar pelos integrantes dogoverno há pouco empossado, sob o comando de Passos Coelho (sucessor de José Sócrates), obrigado a cumprir os acordos assinados junto ao Banco Mundial e ao FMI. E isso implica, indispensavelmente, além de promessas de austeridade, em novos cortes de benefícios e aumento do desemprego.
    Mas se há uma crise instalada, também e simultaneamente, parece-me haver um sentimento de orgulho ferido e uma busca obstinadapor novos caminhos. É um povo que tem belíssima história, e as novas gerações estão aí dispostas a honrar o passado e enfrentar os desafios do agora.
    A imprensa está fazendo sua parte.
    O Expresso promoveu uma série de conferências dedicadas ao tema "Portugal nos próximos três anos" e, na última delas, "Uma nova mentalidade", a resposta foi claramente afirmativa para a pergunta: "Pode a crise ser positiva para Portugal e para os portugueses¿"
    Raul Diniz, professor da AESE - Escola de Negócios é extremamente didático:
    "Nas crises, as sociedades vingam-se das injustiças ou dasdesordens cometidas. A sociedade tem processos de autogênese e volta a uma regeneração de valores que lhe permite subsistir. Entre os valores que se perderam encontra-se a cultura de austeridade, dando lugar à ansiedade do prazer imediato".
    O Diário de Notícias, por sua vez, neste mês de agosto,entrevista uma personalidade, a cada dia, revelando o que cada um quer, o que de melhor tem Portugal e o que se pode e deve melhorar. O objetivo, explícito, é "estimular o ânimo dos portugueses".
    Na edição de hoje, o entrevistado é um literato, Pedro Mexia. Ele resume sua vontade numa frase:"Tenho uma relação bastante pacificada com Portugal e não sou daqueles que está sempre a flagelar-se".
    Portugal e os portugueses tratam de se reinventar. E isso é bom. Por mim, repito Miguel de Unamuno: "Quanto mais lá vou, mais quero lá voltar".


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