As palmadas da
minha
infância
Tanto quanto lembro, uma única vez
recebi palmadas de meu pai. Já com
minha mãe foi diferente, ela é
quem se encarregava dos pequenos castigos
e reprimendas, sempre que o filho cometia
algum pecado, fora dos padrões por
eles estabelecidos. Incluindo palmadas.
Nem por isso perdi por eles o respeito.
Ao contrário. Sempre fui grato pela
educação que recebi. Lembro
que, na adolescência, quando fumar
era sinônimo de masculinidade, certo
dia decidi acompanhar no hábito (ou
no vício) a maioria dos meus parceiros
de aula. Mas não o fiz às
escondidas. Antes, resolvi perguntar ao
meu pai se tinha permissão para fumar.
Com sua calma característica, ele
não disse não:
- Se quiseres fumar, fume. Mas eu entendo
que ainda és muito moço, com
o corpo em plena formação.
Procure alguma marca de um cigarro mais
fraco.
Deixei, na época, o fumo de lado,
até chegar, aos 19 anos, às
redações de jornais de Porto
Alegre. Raros eram os jornalistas que não
tinham o cigarro como muleta para aplacar
em parte a ansiedade dos prazos inflexíveis
do fechamento das páginas. Editor,
fui um fumante a mais, durante largo tempo.
Papai sempre usou argumentos para o convencimento,
ao invés de se utilizar da força.
Também não foi a força
que utilizei para a educação
de meu filho. E doeu-me as poucas vezes
que lhe disse não a algum pedido
que julguei impróprio. Como, por
exemplo, quando ele pretendia, num Natal,
ganhar uma motocicleta.
Essas reflexões me ocorrem a propósito
do projeto de lei do governo federal que
proíbe palmadas, beliscões
e castigos físicos em crianças.
O projeto foi enviado ao Congresso Nacional
alterando a lei que dispõe sobre
o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)
e "estabelece o direito da criança
e do adolescente de serem educados e cuidados
sem o uso de castigos corporais ou de tratamento
cruel ou degradante".
Atualmente, o ECA fala em "maus tratos",
sem especificar castigos a que as crianças
não podem ser submetidas.
Pelo projeto, considera-se castigo corporal
qualquer "ação de natureza
disciplinar ou punitiva com o uso da força
física que resulte em dor ou lesão
à criança ou adolescente",
inclusive palmadas e beliscões.
Uma pesquisa realizada pelo Datafolha, em
todo o país, revela que a maioria
dos brasileiros já apanhou dos pais,
bateu nos filhos e é contra o projeto
de lei.
Há vozes contra e a favor do projeto,
claro.
Ângela Soligo, especialista em psicologia
educacional da Unicamp diz que "não
se ensina nenhum princípio, nenhuma
ética, com a palmada".
Lino de Macedo, outro especialista em educação,
este da USP, diz que se trata de uma lei
"que quer regular a intimidade da casa,
da relação pai e filho. Os
casos extremos já têm medidas
judiciais. Já temos recursos que
funcionam".
Até que me convençam do contrário,
alio-me aos que são contrários
ao projeto.
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